dzongsar jamyang khyentse, thubten chökyi gyamtso ·
os quatro pilares do buddhismo

Em abril de 1999, Dzongsar Khyentse Rinpoche deu em Sydney (Austrália) um ensinamento intitulado "O que é buddhismo? E o que não é?" Estes são alguns trechos do ensinamento.

Como eu deveria começar agora? Isto será acadêmico às vezes, bem intelectual. O que é buddhismo e o que não é? Talvez um modo mais apropriado de dizer é, "O que é o caminho do Buddha Gautama e o que não é?" Muitas vezes fui perguntado pelas pessoas, "O que é buddhismo?" "O que é buddhismo em poucas palavras?" "Qual é a visão ou filosofia únicas do buddhismo?" Estou certo de que vocês também encontraram estes tipos de pessoas perguntando essas questões.

Agora, antes de falar sobre isto, acho que é bom falar sobre o modo buddhista clássico de categorizar as coisas. Eles categorizam as coisas em três departamentos: visão, meditação e ação. E este é um modo muito bom de entender o caminho. E esta visão, meditação e ação, mesmo que possamos não usá-las em nossa vida mundana, cotidiana — efetivamente temos esta visão, meditação e ação se pensarmos cuidadosamente sobre isto. Por exemplo, qual é o melhor carro que temos agora? BMW, digamos. É anunciado como o melhor carro, o mais rápido, o mais suave, o mais luxuoso, o mais confortável e todas aquelas coisas. E a visão, neste caso, é de certa forma confiar em todas estas propagandas e pensar que "Sim, o BMW é um bom carro". Isso é a visão. Ter uma idéia. A partir de um ponto de vista acadêmico, quando dizemos "visão", estamos falando sobre uma idéia. O BMW é um bom carro. É isso. Isso é a visão. E então, quando dizemos meditação, contemplando-o, admirando este carro, a cor, a forma, o modo como corre — não sei. Nunca tive um BMW, então não sei como ele funciona. Mas geralmente aqueles que estão obcecados com qualquer visão que tenham, ou que estejam aprendendo ou começando a se tornar obcecados com qualquer visão que tenham — isso efetivamente é a meditação. Tornar-se acostumado com esta obsessão ou, em melhores palavras, tornar-se acostumado com esta idéia. Tornar-se familiar com esta idéia. Isso é a meditação. Isso é tudo que há. E então a ação é efetivamente sair e comprar um BMW, dirigi-lo, convidar os amigos para correr nele e o exibir. Isto é o que chamamos ação. Então, é isso. Quando falamos sobre visão, meditação e ação, é assim que os entendemos. Então, este modo de categorizar é bem útil para entender a filosofia buddhista.


Então, agora perguntamos a questão, "Qual é a visão buddhista única à qual os buddhistas estão tentando se acostumar?" Então, é aqui que o nosso assunto começa. Há quatro diferentes visões que são únicas do buddhismo, que vocês não podem encontrar em qualquer outro lugar. Se encontrarem todas estas quatro visões dentro de um caminho, dentro de uma filosofia, dentro de uma idéia, então não importa se ela é chamada de buddhista ou não, porque a palavra "buddhista" ou "buddhismo" não é importante. Mas se este caminho contiver estas quatro visões únicas, então isso é algo que alguém como eu consideraria o caminho do Buddha, o caminho de Siddhartha, o caminho que é ensinado por Siddhartha Gautama.

Falarei brevemente sobre elas. Qualquer coisa que seja composta é impermanente. Isso é único. Mais tarde falaremos porque isto é único. A segunda (um pouco mais complicada e também dolorosa de se ouvir) é que todas as emoções são dor, todas as emoções são sofrimento, todas as emoções são duhkha. Isso é algo que não queremos ouvir. E é algo único do buddhismo. Acho que apenas os buddhistas falam sobre isto. Muitas outras religiões ou filosofias cultuam coisas como amor, celebração, cânticos e coisas assim — os buddhistas acham que tudo isto é sofrimento. Falaremos sobre isso mais tarde. E a terceira visão é muito mais difícil. Nenhum fenômeno tem existência inerente. Alguns de vocês, buddhistas desgastados e cansados, devem ter ouvido isto milhares de vezes. Mas para aqueles que são novos, pode ser bem interessante. Mas isto também é bem difícil de engolir porque há muito bloqueio dentro de nós. A quarta (a mais difícil de entender e a mais difícil de aceitar) é que o nirvana está além dos extremos. Isso é muito, muito difícil. Não apenas de entender, mas difícil de aceitar porque, como pessoas religiosas, todos pensamos que iremos de algum modo para um lugar onde teremos um sofá melhor, um chuveiro melhor, um sistema de esgoto melhor, algo assim. Algum tipo de nirvana onde nem mesmo precisamos ter um controle remoto, onde tudo funciona no momento em que pensamos. E quando os buddhistas começam a dizer que o nirvana está efetivamente além dos extremos, isso é algo bem difícil de aceitar.


Então, vamos falar sobre a primeira visão, todas as coisas compostas são impermanentes. Isso é uma grande afirmação. Por exemplo, quando falamos sobre a impermanência, há certas coisas que nós, seres humanos, aceitamos como impermanentes, por exemplo, o tempo. Isso é bem fácil de aceitar — há muitas coisas grosseiras que são impermanentes e que aceitamos bem facilmente. Mas então há certas coisas grosseiras que não aceitamos, apesar de serem visivelmente impermanentes. Ainda não as aceitamos como coisas impermanentes, por exemplo, o nosso corpo. É visível que, a cada dia, a cada ano, estamos ficando mais velhos, mais deformados, mais curvados, mas não podemos aceitar isto.

Vamos nos concentrar mais na palavra "composto". É a visão buddhista de que todas as coisas compostas são impermanentes. Agora, isso inclui muito. Todas as coisas compostas! Quando estamos falando sobre coisas compostas, estamos falando sobre mais de uma. Estamos juntando ou reunindo. Tudo que se junta, tudo que se reúne, qualquer coisa que é colocada junta, mais cedo ou mais tarde irá se separar! Essa é a linguagem mais comum. E quando dizemos, "Tudo que se junta", é aqui que os buddhistas incluem coisas como o tempo, o espaço, as dimensões. Até mesmo o tempo! Quando falamos sobre o tempo, estamos falando sobre passado, presente e futuro. Então, estamos falando sobre a impermanência. Essa é a lógica buddhista, o modo buddhista de pensar. O tempo é algo composto. É por isso que é impermanente. Também é aqui que entra a lógica buddhista do karma. Por exemplo, hoje, este momento é impermanente. Por quê? Porque este momento é feito de muitas partes, feito especialmente de passado e de futuro. Se o passado não existe, este presente não existe. Se o futuro não existe, este presente não existe. Esta é a lógica buddhista. Portanto, este momento presente é impermanente. É assim que os buddhistas o colocariam. Há uma lógica muito importante para isso, pois se este presente se tornasse permanente, não haveria futuro, porque o presente estaria sempre lá. Então, numa saberíamos como planejar. Não haveria sistema de programação, de marcar encontros. Até mesmo ter uma data não seria possível se o tempo não existisse. Mas o tempo existe. Entretanto, quando o tempo existe, ele existe apenas como uma coisa composta.

Deixe-me dizer isto a vocês de outra maneira. Quando os buddhistas falam sobre coisas compostas, estão falando sobre três coisas: início, meio e fim. Cada ato que fazemos — digamos, plantar uma flor ou cantar uma canção — tem um início, um meio e um fim. Agora, novamente estamos falando sobre o tempo: o início da canção, o meio da canção e o fim da canção. Se um destes três não existir, por exemplo o meio, então não há essa coisa de cantar uma canção. Então, para cantar uma canção precisamos ter o início da canção, o meio da canção e o fim da canção. Então, isso faz com que seja composta. Composta do quê? De três coisas: início, meio e fim.

Então, agora perguntamos questões como, "E daí? Por que deveríamos nos importar com isso? Qual é o problema com isso? OK, tem um início, tem um meio, tem um fim. E daí?" Bem, não é que os buddhistas se preocupam porque tem um início, um meio e um fim. Não há um problema aqui. O problema é que quando há impermanência envolvida, quando há matéria composta envolvida, quando há tempo envolvido, então há a assim chamada "incerteza" envolvida. Quando há incerteza, isso é a causa da insegurança. E isto é o que vocês têm de saber. Isso é tudo o que estão dizendo. Muitas pessoas pensam que o buddhismo é pessimista, sempre trazendo más notícias como morte, tudo é impermanente, velhice. Não é. De fato, como sempre digo, a palavra impermanência é um alívio. É um grande alívio. Por exemplo, estávamos falando sobre um BMW. Hoje não tenho um BMW. E devido a esta incerteza, e devido a esta impermanência, é que eu poderei ter um amanhã! Se esta assim chamada impermanência não existisse, eu estaria preso à não-existência do BMW, logo nunca poderia tê-lo! Então, a impermanência não é necessariamente uma má notícia. É o modo como vocês a interpretam e o modo como vocês a entendem que são importantes.

Então, sobre o que meditamos? Quando meditamos, contemplamos esta realidade, este fato, esta verdade. Isso é tudo que há. Tentamos contemplar esta verdade da impermanência, o fato de que tudo é mutável. E o que é a ação? A ação é bem interessante aqui. A ação é quando começam a conhecer e aceitar a verdade; até mesmo se o seu BMW for arranhado por jovens, vocês não ligarão muito. Vocês entendem, chegará esse tipo de atitude de "não dar a mínima". E aqui é onde a pessoa está bem feliz. Por quê? Porque vocês vêem — OK, os buddhistas também falam sobre a iluminação. E o que é a iluminação? Iluminação é se liberar da rede da delusão. E o que é a delusão? A delusão na primeira categoria é quando vocês não sabem que todas as coisas compostas são impermanentes. Isso é a delusão. Quando vocês souberem isto, não apenas intelectualmente, mas efetivamente com a meditação, e quando vocês a praticarem, então estarão livres desta delusão.


Vamos para a segunda visão. Todas as emoções são dor. Todas elas! Por quê? Porque envolvem dualismo. Esse é o grande assunto agora. Temos que discutir um pouco sobre isto. Do ponto de vista buddhista, enquanto houver sujeito e objeto, enquanto houver uma separação entre sujeito e objeto, enquanto vocês os divorciarem, digamos assim, enquanto vocês pensarem que eles são independentes e que então funcionam como sujeito e objeto, isso é uma emoção, o que inclui tudo, praticamente todo pensamento que temos. É por isto que o grande mestre Jigme Lingpa disse, "Nós, seres humanos, a partir do momento em que separamos nossos lábios e proferimos palavras, isto é tudo contradição. No momento em que pensamento algo, isto é tudo confusão".

Vocês vêem, acho que quando falam sobre emoções, estão falando sobre um nível maior, como chorar, ter agressão, coisas assim. Mas isso é apenas a maturidade de uma emoção sutil. É isso que os buddhistas diriam. E, de fato, os buddhistas pensariam que estas são as emoções menos perigosas. As emoções reais amadureceram a mente dualista, como a raiva ou a inveja efetivamente se manifestando. Através delas, a mente vai quase se exaurir! Não precisa de qualquer outro antídoto! Irá cansar a si mesma! Mas a causa disso, que é a emoção real, que é a mente dualista — tudo isso é dor. Enquanto houver a mente dualista, isso é emoção, e essa emoção é dor.

Por que a mente dualista cria a dor? Vocês vêem, enquanto houver a mente dualista, ela também cria muitos preconceitos, muitas expectativas, muito medo, muita esperança. Enquanto houver a mente dualista, há esperança e há medo. E quando há esperança e há medo, isso não é dor? A esperança é, em muito, uma dor. Pensem! A esperança é uma dor muito sistematizada e organizada! E então, é claro, o medo nem precisamos explicar.

E como a dor se manifesta? Vocês sabem, a primeira coisa que o Buddha disse depois de atingir a iluminação foi, "Conheçam o sofrimento". Essa foi a primeira nobre verdade. Vocês sabem, ele falou sobre quatro nobres verdades. A primeira nobre verdade era "Conheçam o sofrimento". Ele nunca disse, "Abandonem o sofrimento". Nem disse, "Adotem o sofrimento". Ele apenas disse, "Abandonem a causa do sofrimento". Ele disse, "Conheçam o sofrimento". Essa é uma mensagem muito importante porque muitos de nós confundimos a dor com o prazer. Como esta dor se manifesta? Temo que, para pessoas como vocês e como eu — provavelmente mais para mim do que para vocês —, por enquanto ela se manifesta como prazer...

Quando falamos sobre a definição de dor, tudo o que vocês disseram é bom. Mas há algo que temos de adicionar aqui. A definição de dor é tudo o que vocês disseram, como impermanência, algo que vocês não querem, algo desagradável e tudo isso. Mas, além disso, algo que não tem uma qualidade inerentemente existente. Isso é o que os buddhistas adicionam. É uma boa, efetivamente, porque é como uma miragem. Vocês estão com sede aqui, entendem? Estão em um deserto e finalmente vêem esta grande miragem, vocês sabem, como água. E sentem alívio. "Ah, há água." E então vão lá. Quanto mais se aproximarem, mais a qualidade verdadeira desta água, desta miragem, desaparecerá. E isso é o desapontamento último, não é? É isso. Esse é um aspecto bem importante da definição de dor de acordo com o buddhismo. Algo que não tenha qualquer coisa que seja essencial. Algo que não tenha existência independente. Portanto, agora que vocês ouviram a definição de dor, vocês podem ver porque os buddhistas concluem que todas as emoções são dor. Porque são impermanentes, o que significa que são incertas. E porque há esperança e medo, o que em si é sempre um pouco de paranóia — de fato, bastante paranóia. E finalmente nunca têm uma natureza inerentemente existente. Então, nada há que seja digno, digamos assim. Quase todo esforço que criamos por esta emoção — no fim é para algo completamente fútil. É por isso que é dor. A segunda visão está terminada agora.


Agora a terceira visão. Esta é muito mais difícil. E este é o ensinamento último do Buddha. Todos os fenômenos não têm uma essência inerentemente existente, uma essência verdadeiramente existente. Todos os fenômenos não têm um eu inerentemente existente. Estamos falando sobre shunyata, vacuidade. Vamos estudar isto palavra por palavra. Todos os fenômenos não têm uma essência inerentemente existente. Antes de tudo, vamos falar sobre "todos". Tudo! Não exclui o Buddha! Não exclui a iluminação! Não exclui o caminho! Inclui tudo, tudo. Inclui, por exemplo — apenas um exemplo —, todas as coisas compostas. Inclui todas as emoções. E então a segunda palavra é "fenômenos". Basicamente, o que vocês precisam ouvir é que enquanto houver envolvimento de sujeito e objeto, função de sujeito e objeto, então isso é o que chamamos de "fenômenos". Então, o que o sujeito faz? O sujeito vê as coisas. O sujeito vê os objetos. O sujeito olha para o objeto. E quando o sujeito olha para o objeto e separa o objeto como algo "externo", algo independente do sujeito, isto é o que os buddhistas chamam de ignorância. O que esta ignorância faz? Esta ignorância faz com que vocês não vejam a verdade dos fenômenos. E a verdade dos fenômenos é o que é chamado shunyata. Mas quando este sujeito deludido vê as coisas, olha para algo, este objeto é interpretado por este sujeito como algo verdadeiramente existente.

OK, vocês ouviram a história da vida do Buddha? Os doze atos? Alguns de vocês ouviram. Ele ensinou três sermões, certo? A primeira roda do Dharma, a segunda e a terceira. Efetivamente, os atos do Buddha são um estudo muito, muito interessante. São efetivamente um estudo muito, muito profundo que vocês deveriam explorar, porque normalmente, quando falamos sobre o primeiro sermão, o segundo sermão, falamos apenas sobre o fato histórico. Mas, de fato, estes assim chamados "três sermões" são muito metafóricos. Efetivamente, uma frase do Buddha tem estes três sermões nela, o primeiro, o segundo e o terceiro. Apenas em uma frase. Alguém perguntou a ele a questão, "Qual é a definição de mente?" Ele disse a definição do que era "Mente, não há mente, a mente é luminosa".

"Mente, não há mente, a mente é luminosa". O primeiro sermão, o segundo sermão e o terceiro sermão. É uma abordagem muito interessante. O primeiro sermão — uma palavra, "Mente". Veja, o Buddha não é um cara niilista. Ele aceita a mente. Essa é a primeira palavra, "Mente". Esse é o primeiro sermão. E esse é um sermão muito importante porque ele nega todas as abordagens niilistas. Todas as coisas como, "não há céu, não há inferno, não há karma, não há causa, não há efeito". Todos estes são dissipados pela palavra "Mente". Ele disse, "Sim, há mente. Sim, há karma. Sim, há causa e condição. Sim, há amor e devoção. Sim, há cobiça e raiva. Sim, há tudo isso."

Agora, no segundo sermão ele diz, "Não há mente". Agora ele está falando sobre um nível mais elevado porque a mente é apenas um conceito. Não há uma coisa como uma mente verdadeiramente existente. Isto é o que ele está dizendo. Este é o segundo sermão. E ele estava dizendo isto a um grupo de pessoas muito mais realizado. O primeiro sermão sobre a palavra "Mente" ele disse apenas a algumas pessoas comuns. Mas o segundo ele disse a pessoas muito mais realizadas. "Não há mente". Ela não tem uma essência inerentemente existente. O terceiro — agora há um debate sobre esse. Muitos, muitos eruditos no Tibet dizem que o terceiro é o ensinamento mais elevado. Ele apenas disse, "Mente, não há mente, a mente é luminosa". Agora ele está dizendo, "A mente é luminosa". Ele está falando sobre a natureza búddhica agora. Luminosidade talvez não seja a melhor palavra. Não-deludida, surgindo espontaneamente, sabedoria primordialmente existente. Agora ele está falando sobre a natureza búddhica.

Agora, deixe-me apresentar estes três novamente, com uma explicação diferente. Esta é efetivamente uma observação feita por Nagarjuna, um grande comentador. Ele é incrível. Ele perguntou, "Qual era o propósito do primeiro sermão do Buddha quando ele disse 'Mente'?" Qual era o propósito? O propósito era o de dissipar tudo que é não-virtuoso. Quando a não-virtude vem? Quando vocês se tornam eternalistas ou niilistas. Logo, tornam-se não-virtuosos. Então, a fim de parar estes atos e pensamentos não-virtuosos, ele deu o primeiro sermão. O segundo sermão — qual é o propósito do segundo sermão? Dissipar o eu. Self. Ego. eu, self. De qualquer modo, como uma mesa, cadeira, causa, o self, ele mesmo, este self. O segundo sermão é para dissipar este apego ou este próprio "eu". É onde ele ensinou a vacuidade. O terceiro sermão — efetivamente, todos os seus sermões eram para dissipar algo, nunca para obter algo, sempre para limpar algo, para lavar algo. O primeiro era para lavar os pensamentos e ações não-virtuosos, o segundo era para dissipar o eu, o apego ao eu, o ego. O terceiro, um ensinamento muito, muito profundo, era para dissipar todas as visões, incluindo a visão do não-eu. Até mesmo coisas como, "Oh, nada há que exista". Até mesmo isso tem de ser dissipado. É onde ele trouxe de volta esta idéia da natureza búddhica.

Mais algumas palavras sobre esta terceira visão. Esta é efetivamente a principal, a visão última do buddhismo, como vocês devem ter percebido. Vejam, falamos sobre todas as coisas compostas sendo impermanentes. Entendendo isso, o que isso faz? Nos faz ver a verdade de que toda coisa composta é impermanente. Então, quando vocês efetivamente atravessam esta experiência de perder algo, vocês já estão preparados para aceitar o fato de que, já que tudo é impermanente, isto acontece; já que é uma coisa composta, isto é o que já é esperado. Então, isso beneficia. Tem um benefício. E então, quando falamos sobre a segunda visão, que toda emoção é dor, entendendo isso, obtemos a motivação para controlar nossa emoção ou para torná-la mais trabalhável. Para isso fazemos meditação shamatha, meditação vipashyana e todos os tipos de meditação. Mas isto beneficia. Há o benefício de perder o apego, a fixação. Quando temos uma fixação, uma fixação muito apertada, um apego apertado, entendendo esta segunda visão, afrouxamos um pouco esse apego. Então, há um pouco de benefício.


Agora a terceira visão — o benefício de entender que tudo é vacuidade — é um pouco inimaginável por enquanto, eu acho. O que isto beneficia? Por que isto beneficia? O que isso faz com vocês? OK, todos os fenômenos não têm uma essência inerentemente existente. O que acontece quando vocês ouvem isto e então o contemplam? Não muitos de nós conhecemos o valor da realização efetiva desta vacuidade. Até mesmo se tivermos um pouco de inspiração por este entendimento da vacuidade, geralmente é muito limitado, muito estreito para a maioria de nós. Posso dizer a vocês alguns dos sinais ou indicações da falta de entendimento da vacuidade. É claro, falando de modo geral, quando não há entendimento da vacuidade, ou vocês se tornam eternalistas ou se tornam niilistas. É claro essa é a abordagem buddhista padrão, clássica. Eles sempre dizem que, se não entenderem a vacuidade, vocês cairão nestes extremos. Mas isto é uma linguagem grande, filosófica. Não sabemos o que isso significa, cair no eternalismo. Isto é o que eu gostaria de expandir um pouquinho, porque é bem importante.

A devoção que temos, por exemplo, como a devoção ao Lama — se não forem cuidadosos, se não tiverem esta terceira visão, ela pode cair no eternalismo. E depois de dez anos, quando as coisas saírem erradas, isso pode jogá-los de volta ao niilismo. Então há um grave perigo aqui. Sua Santidade o Dalai Lama sempre diz uma palavra que significa "a queda do não entender a vacuidade". Por exemplo, como buddhistas, praticamos a compaixão, o amor. Quando temos uma falta de entendimento da vacuidade, uma falta de entendimento desta terceira visão, esta compaixão pode se tornar uma compaixão orientada a uma meta. Então, esta compaixão irá sair pela culatra para vocês, eu acho. Esta compaixão destruirá sua confiança ao invés de desenvolvê-la. Este tipo de compaixão pode fazê-los ficar sem esperança, ou co-dependentes, se quiserem.

Como buddhistas, vocês têm de ser bons garotos ou garotas, então o que isso significa? Ter compaixão! E como não têm um entendimento da vacuidade, o que isso significa? Significa que estão muito apegados à meta. A meta da compaixão é geralmente olhar para os seres que têm um problema — como problemas familiares, problemas com álcool, problemas de depressão. E como um bom garoto ou boa garota buddhista, tentam resolver este problema. E porque não têm um entendimento da vacuidade, estão apegados à meta. A meta é a sua interpretação! Vocês pensam na sua interpretação de planejar a resolução do problema. E isso então se torna o seu objeto último. Oh, oh. Vocês são vítimas da esperança, que trará o medo, que então trará o desapontamento. Ou vocês se tornam bons praticantes Mahayana. Uma vez, duas vezes, vocês tentam ajudar os seres sencientes, mas como têm uma falta de entendimento da terceira visão, vocês podem se cansar, cansados de beneficiar os seres. Por quê? Falta de entendimento da vacuidade. Este é um tipo de problema grande.

Há um outro tipo de problema que também surge da falta de entendimento da vacuidade, da falta de entendimento desta visão, que acontece mais com os buddhistas cansados. De alguma forma, como acontece de eles receberem ensinamentos sobre a vacuidade de grandes mestres como o Dalai Lama, de novo e de novo, e de lerem livros sobre a vacuidade, eles pensam sobre a vacuidade e, de alguma forma... vocês sabem, isto é o que chamamos de coisa que está na moda. Acho que as pessoas jovens fazem isso. Como, quando vocês estão com dezesseis ou quinze anos, vocês vão a uma festa e, quando todos usam drogas, se vocês não usam, sentem que não pertencem a este grupo. E isto acontece muito entre os buddhistas. Se você não aceita a vacuidade, você não é uma boa pessoa lá. Então, de algum modo fingimos que amamos esta vacuidade. Também escolhemos praticar esta vacuidade. Mas há um efeito colateral ruim quando vocês não a entendem adequadamente. Vocês violam muitos detalhes kármicos! Vocês dizem, "Tudo é vacuidade. Podemos fazer o que queremos." Violam os detalhes kármicos e se tornam completamente deselegantes. Vocês se tornarão a fonte da perda de inspiração para muitas pessoas!

A terceira visão, como eu estava dizendo, é um assunto muito importante. Posso dizer, efetivamente, que as outras três visões são esta terceira visão. A terceira visão é efetivamente como a quintessência de todas as visões. Podemos falar de um modo bem simples sobre esta vacuidade — que é "o que vocês pensem não é o que é". Como aparece não é como é. É isso. Isso é expresso de forma bem simples. Podem pensar que ele é um homem muito bom, mas isso é apenas sua idéia. Este homem bom, este homem branco, negro, rosa ou o que for, isto é apenas a sua idéia. Isto não é o que ele é. Esse é um modo simples de abordar a vacuidade.

O que é vacuidade? Vacuidade é o entendimento de que o que vocês pensam não é o que é. Isso é bem simplificado. Não funcionará por muito tempo, mas funcionará por enquanto. Isso os conduzirá a algum lugar. OK, vocês estão felizes com a terceira visão agora? Isto é indispensável e isto é único. Muito único porque ninguém fala sobre isto. Em quase todas as filosofias ou religiões, podem dizer que as coisas são uma ilusão, que o mundo é maya ou uma ilusão. Mas sempre há uma ou duas coisas deixadas de fora como algo verdadeiramente existente, como deus, energia cósmica ou o que for. Sempre deixam uma ou duas entidades como algo supremo. Não os buddhistas. Tudo, desde o samsara até o nirvana, desde a cabeça do Buddha até um pedaço de pão, tudo é vacuidade. Tudo! Nada é como vocês imaginam, como vocês pensam, como aparece. Essa não é a verdade última. O que quer que vejam, o que quer que apareça, essa não é a verdade última. Esta é a visão.


Agora, a última visão. O nirvana está além dos extremos. Agora, tendo ouvido todo este negócio de vacuidade, vocês entenderão isto mais facilmente. Mas até mesmo depois de falar sobre tudo sendo vacuidade, ainda enfatizamos a última visão, a quarta visão, que o nirvana está além dos extremos, porque é uma coisa única sobre o buddhismo. Em muitas filosofias ou religiões, sua meta final não está além dos extremos. Sua meta final é algo que podem segurar e manter. Mas a meta final do buddhismo, a iluminação, também está além de todos os tipos de fabricações, de todos os tipos de extremos. Quando digo "extremos", isto é fabricação. A fabricação, como disse antes, é como um bom chuveiro, uma vida confortável. Isso é o que imaginamos. O que quer que imaginem não é a iluminação. Então, a iluminação é, novamente, voltar ao "não é o que vocês pensam". Este modo de pensamento da iluminação, não é isso! Novamente, isso faz o caminho buddhista ser único porque uma outra filosofia ou sistema religioso diria que paraíso, ou o que quer que seja, a meta final, é a única coisa verdadeira que existe. Isto soa como uma coisa inútil a partir do ponto de vista emocional.

Então estas quatro visões — quem quer que as mantenha em seu coração, em sua cabeça, que as contemple... Esta pessoa é um buddhista e ele ou ela não precisa ser chamada de buddhista — mas ele ou ela é um seguidor do Buddha. Alguém que vá além disso, fora destes quatro pilares do buddhismo, então não é um buddhista. Eles não tomaram refúgio no Buddha, no Dharma e na Sangha.

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adaptado de www.siddharthasintent.org