Acho que a palavra
ngöndro ou "preliminar" é encorajadora porque é algo que é ensinado para
principiantes. Entretanto, esta palavra "preliminar" parece ter iludido muitas pessoas a pensarem que não
ela é a prática principal, e então muitos alunos tendem a não considerar as práticas preliminares como importantes. Isso é muito desafortunado porque o ngöndro consiste de todas as práticas dos três veículos. Por exemplo, há o refúgio, que falando de modo
geral é a essência da prática Hinayana. O refúgio nos salva de escolhermos um caminho errôneo e nos leva ao caminho, visão e meditação corretos. A bodhichitta é a prática essencial do
Mahayana que, como afirmado no Manjushri Sutra, é o único modo
de realizar a não-dualidade. A prática de Vajrasattva e a oferenda de mandala purificam nossa percepção e nosso ser, e também acumulam mérito, de modo que nos tornamos um vaso perfeito para praticar as yogas profundas. Finalmente, há a prática quintessencial do Vajrayana, a visão sagrada disposta muito cuidadosamente na última fase do ngöndro — a Guru Yoga. Não devemos nos esquecer que o ngöndro não é
simplesmente uma preliminar; ele é a prática principal.
Se a prática do ngöndro fosse apenas uma prática preliminar, então por que alguém como Sua Santidade Dilgo Khyentse Rinpoche precisaria praticá-lo até mesmo em um estágio bem
avançado de sua vida? Porém, ele nunca deixar de fazer muitos ngöndros
— o do Longchen Nyingthig, o do Chetsün Nyingthig e em certo ponto eu também o vi fazendo o do
Künzang Tukthig. Para aqueles que vocês que quiserem seguir seriamente o caminho deste perigoso e enigmático Vajrayana, estejam prontos para praticar o ngöndro
durante um longo tempo, não simplesmente até finalizarem uma certa quantidade requerida.
As preliminares têm uma estrutura muito especial que explicarei de acordo com alguns dos escritos de Jamgön Kongtrül. De forma ideal, alguém que
deseja praticar o ngöndro deve, pelo menos intelectualmente, chegar à visão correta. O reconhecimento da visão correta é difícil. Não estou pedindo que vocês reconheçam a visão sem quaisquer dúvidas — essa confiança é muito difícil, especialmente para
principiantes como nós. Tudo o que estou pedindo a vocês é que pelo menos obtenham um entendimento intelectual da visão correta.
Por exemplo, o termo Longchen indica uma visão e tem infinitos significados. Aqui, por enquanto, a palavra
Longchen é a abertura, um espaço muito grande. Basicamente, o espaço é onde as coisas podem se instalar. Bem agora, em nossos fluxos mentais, nosso espaço é muito limitado,
ou porque estamos engrossados no passado, ou antecipando o futuro, ou distorcendo o presente. Vidas
após vidas, anos após anos, sobrecarregados por todas as nossas várias influências,
nós limitamos e estreitamos nosso espaço; agora, nada se instala em nosso fluxo mental e o resultado é uma ansiedade constante e
a falta de coragem. Passamos por todos os sofrimentos padrão. Nos
apegamos muito fortemente. Agarramos as coisas, apesar de esses objetos e experiências
— segurados firmemente, aparentemente muito atrativos, sólidos e tangíveis
— sempre nos desapontaram. Independente de quantos deles nos desapontaram, de alguma forma há sempre esta esperança de que o próximo objeto que estamos agarrando não nos desapontará. Esta tendência tem continuado por muitas, muitas vidas. Portanto, nosso fluxo mental é muito limitado e sem espaço. É claro que não há espaço para os outros, nem há qualquer espaço para nossas próprias expectativas, esperanças e medos inconstantes, e assim por diante. Nossa prática é limpar este espaço. Saber
que na realidade o espaço é possível, que o espaço existe, apesar de aparentemente não haver espaço — esse entendimento é o que chamo de entendimento intelectual da visão.
Essa aceitação é muito importante e tem de vir ouvindo ensinamentos, contemplando e lendo livros. Uma vez que estejamos vagamente convencidos deste tipo de visão, então, como Jamgön Kongtrül diz, é realmente importante
nos acostumarmos a esta visão. Prática significa acostumar-se a esta visão. De outro modo, como disse anteriormente, é fácil ficar distraído, é fácil pensar que o próximo objeto que estamos agarrando irá funcionar — talvez não desta vez, mas certamente na próxima.
Jamgön Kongtrül disse que, a fim de começarmos a prática de nos acostumarmos à visão, o mais
importante é assentar o fundamento. O fundamento é a mente da renúncia. Renúncia significa repulsão por esta vida infinita, sem sentido, mundana, que está constantemente criando sofrimento, seja direta ou indiretamente. Isto é uma observação muito importante de Jamgön Kongtrül porque realmente não podemos tomar refúgio até que tenhamos a mente
da renúncia. Enquanto não tivermos a mente da renúncia, sempre pensaremos que há uma alternativa, um modo diferente de resolver o problema. É como se estivéssemos caindo de um penhasco e, enquanto despencamos, nós agarramos qualquer coisa à nossa frente: grama, galhos, madeira seca, qualquer coisa. Todos estes falham, mas não desistimos porque achamos que a próxima
moita de grama vai funcionar. Enquanto não pararmos, enquanto não vermos que nenhum destes funcionará, realmente não podemos nos entregar totalmente às Três Jóias. É por isso que a mente da renúncia é um fundamento. É muito fácil de se falar e muito difícil de se praticar.
Como vocês podem desenvolver a mente da renúncia? Vocês vivem neste mundo onde as coisas funcionam, os semáforos funcionam, a descarga dos toaletes
funciona. Como a mente da renúncia pode acontecer aqui? Ela nem mesmo começa a acontecer com pessoas como nós. Devido aos lugares onde crescemos e as condições
em que vivemos, vocês podem pensar que a mente da renúncia é fácil, mas realmente não é. Ao invés
disso, esta situação é simplesmente ruim — se não for a pior —
porque as pessoas como nós estão esperando se tornar como vocês, então a mente da renúncia,
de fato, está totalmente ausente.
Jamgön Kongtrül disse que, como fundamento da prática, precisamos da mente da renúncia, e como uma porta para a prática, precisamos de devoção ou confiança. Não apenas confiar no
Lama; também precisamos confiar no caminho e no método. Agora, isso é muito crucial. Jamgön Kongtrül continua; como o caminho principal em si, precisamos de compaixão, e como
o espírito ou fluxo vital do caminho, precisamos de diligência. Quando a diligência é perdida, o caminho morre. O caminho tem uma vida muito curta, muito frágil, então a diligência é necessária. Aquilo que assegura que estamos no caminho é a atenção. Para dissipar os obstáculos
do caminho, precisamos de uma entrega completa às Três Jóias. Para aumentar o poder e a força do caminho, precisamos de devoção ao
Lama e, para não sermos desviados, precisamos entender que as instruções capitais de nosso
Lama são o caminho. Este é um conselho muito importante porque na maioria do tempo esquecemos que as instruções capitais são o caminho. Sempre pensamos que o caminho está nos sutras, shastras e tantras, mas o caminho pode ser as simples instruções que vêm do
Lama. Resumindo, assentem o fundamento com a mente da renúncia, abram a porta com a devoção, permaneçam no caminho com a compaixão, persistam com a diligência e evitem os desvios com a atenção. Todos estas estão estruturadas nas preliminares. É por isto que as preliminares são tão importantes,
pois além destas, não há qualquer outro caminho ou prática Vajrayana
verdadeira.
Quando começarem qualquer prática de ngöndro que escolherem fazer, ao invés de imediatamente começarem a ler a liturgia, ajuda muito
se contemplarem a mente da renúncia, se contemplarem os pensamentos preliminares como
a impermanência, o karma e os defeitos do samsara. De alguma forma, fazer isso criará adequadamente a atmosfera
para a prática desse dia. Percebi que muitos alunos, já que seu tempo é muito
limitado — especialmente para aqueles que têm muitas sadhanas para
praticar —, não fazem esta contemplação no começo da prática. Por exemplo, no
Longchen Nyingthig há uma técnica de abençoar a língua, e até
mesmo antes disso há a técnica para purificar o ar velho; todos estes são meios hábeis para invocar esta contemplação. Se vocês não tiverem tempo para fazer todas estas práticas, pelo menos se sentem e contemplem
[os pensamentos preliminares] durante alguns minutos.
Quando contemplarem, façam isso sinceramente. Lemos tanto sobre a impermanência e os defeitos do samsara, os reinos dos infernos e os reinos dos fantasmas famintos, que de
alguma forma estamos cansados destas informações. Ajuda um pouquinho se
contemplarem estas coisas, meramente pensarem ou simplesmente lerem algumas páginas sobre elas. Entretanto, isso não realmente invoca o anseio ou
o forte desejo de realmente abandonar tudo o que for mundano e de se concentrar na prática. Estas contemplações não parecem realmente penetrar em nossa mente. O que quer que
os faça sentir repulsão pela vida samsárica, o que quer que os faça
ter algum tipo de entusiasmo pelo caminho é algo que vocês devem invocar, não importa o que aconteça naquele dia específico. Pode ser que vocês tenham um desentendimento ridículo com um amigo ou irmão, e então isso pode invocar a mente da renúncia.
Considerem que agora vocês estão com quarenta ou cinqüenta anos e tentaram muitos métodos, trocaram muito de roupa e tiverem muitos
companheiros, mas nenhum deles funciona. Geralmente pensamos, "Ah, o próximo
companheiro será diferente!" Esta é minha própria experiência pessoal, assim como a experiência daquelas pessoas que ficaram próximas
a mim. Contemplem realmente, genuinamente. Vamos dizer que vocês estão praticante nesta tarde, então considerem o que fizeram nesse dia, as coisas pelas quais passaram. Isto deve trazer algum tipo de noção de que o que têm feito é ridículo, de que realmente
há algo melhor para fazer. Acho que isto é muito importante.
Estou apenas lembrando os alunos mais velhos do Dharma que reuniram muitas informações. Honestamente, quantas vezes vocês ouviram estes ensinamentos preliminares? Agora, quantos anos vocês se sentaram para as explicações das
Palavras do Meu Professor Perfeito? Não são pelo menos três anos que estou ensinando isto? De alguma forma, estamos cansados destas informações. Conheço poucos de vocês
há vinte anos, e desde quando nos encontramos, temos falado sobre como o samsara é fútil; mas vejam, ainda estamos presos. Ainda nos ferimos se formos simplesmente ignorados. Nos sentamos para os ensinamentos; ouvimos e lemos muito sobre isso, mas não realmente os levamos ao coração. Realmente, isto é muito importante.
Por outro lado, gosto de me encorajar pois fui muito afortunado por ter esta oportunidade e
devo ter tido algum tipo de mérito para ter encontrado grandes mestres, e muitas dessas informações que eles
me passaram estão armazenadas no meu ser. Agora, pessoalmente, eu desisti de mim mesmo, mas pelo menos se eu falar sobre estas informações, então
talvez eu possa ajudar alguns de vocês ao longo do caminho.
Mas quando digo isso, eu me sinto muito embaraçado. Eu me sinto embaraçado porque, quando estava falando sobre se ferir, ficar agitado, ficar paranóico, ficar extasiado, ficar
satisfeito ou ficar irritado, eu mesmo passo por tudo isso e cada um deles é realmente uma grande coisa para mim. Quando fico irritado, isso é um grande coisa, é uma coisa muito grande; de fato, quanto fico irritado, muitas pessoas ficam irritadas. Pelo menos vocês estão em uma situação melhor; vocês
ao menos se escondem em seus quartos e ficam irritados, então, quem se importa? Ninguém se importa com isso. Mas eu posso ficar irritado até mesmo se eu for o único que estiver irritado. Tudo isto mostra que não há
a mente da renúncia. É assim que contemplo, apesar de não por todo o
tempo, é claro. É apenas raramente, quando todos os filmes foram assistidos, quando não há qualquer coisa interessante na televisão e quando ninguém interessante está me
chamando — com exceção de alunos devotos mas, de alguma forma, neuróticos. De qualquer forma, então tento praticar.
O fato de que facilmente fico irritado e agitado mostra que eu não tenho a mente da renúncia.
De certa forma, a mente da renúncia é muito simples. Temos a mente da renúncia quando
percebemos que tudo isto não é uma grande coisa. Alguém pisou no meu dedão,
e daí? Quanto mais nos acostumarmos a esta noção, mais teremos a mente da renúncia. Pelo menos tento ver porque transformo tudo isto em uma grande coisa. Estou simplesmente dando a vocês um modelo de como invocar a mente da renúncia.
É um pouco como neste exemplo. Temos andado neste deserto por muito tempo e qualquer coisa que flua, qualquer coisa que seja aquosa, é muito importante para nós. Até mesmo se vermos uma miragem, nosso único desejo é
o de se aproximar da água, sem perceber que é uma miragem. Se vocês não souberem que é uma miragem e forem
até lá, tudo o que conseguirão é um grande desapontamento. Então, saber que isto é apenas uma miragem é a mente da renúncia.
De certo modo, a renúncia tem esta conotação de abandonar algo. Mas é como no exemplo da miragem. Vocês não podem
abandonar a água porque não há água; é apenas uma miragem. Além disso, vocês não têm de abandonar uma miragem,
pois de que adianta abandonar uma miragem? Precisamos simplesmente saber que é uma miragem. Esse entendimento é uma grande renúncia. No momento em que souberem que é uma miragem, a maioria de vocês nem mesmo irá
até lá porque sabe que é uma fraude; ou mesmo se irem, não há desapontamento porque já sabem o que está lá. Pelo menos, terão apenas um desapontamento pequeno. É por isso que Jamgön Kongtrül disse que a mente da renúncia é como um fundamento.
A mente da renúncia nada tem a ver com sacrifício. Como acabei de mencionar, quando falamos de renúncia, de alguma forma ficamos todos assustados porque pensamos que temos de abandonar algumas coisas, algo valioso, algumas coisas importantes. Mas nada há que seja importante; nada há que seja solidamente existente. Tudo o que vocês estão abandonando é realmente uma identidade vaga. Vocês realizam que isto não é verdade, não é o
definitivo, e isto é como e porquê desenvolvemos a renúncia.
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