dzongsar jamyang khyentse, thubten chökyi gyamtso ·
visão, meditação e ação

Antes de tudo, boa tarde a todos. Isto é supostamente para aqueles que nunca estiveram em ensinamentos buddhistas, mas também posso ver alguns velhos rostos aqui. De qualquer modo, decidi falar sobre algo muito, muito básico. Então, para aqueles que não estiveram em ensinamentos buddhistas antes, por favor, não subestimem o buddhismo como resultado desta palestra. Antes de tudo, devido à minha própria falta de conhecimento, não farei qualquer justiça a ele. E, em segundo lugar, nosso tempo é limitado e o buddhismo não pode ser apresentado dentro de alguns minutos ou horas. Eu mesmo tenho sido um estudante buddhista por todos estes anos e ainda me considero um estudante. Há muitas coisas a descobrir e muitas coisas a estudar, porque o buddhismo é muito vasto e tem muitos paradoxos. Sua vastidão é algo que não posso realmente simplificar, mas tentarei esta noite.

A própria razão pela qual o buddhismo é complicado, vasto e profundo é porque ele é, de acordo com minha interpretação, um caminho orientado à sabedoria. Então, não é um caminho orientado à ética e à moralidade. Enfatiza muito o entendimento da verdade. As pessoas têm esta idéia de que o buddhismo é não-violento e compassivo. Por um lado, isso é muito bom. Como buddhista, eu consideraria isto como um complemento. Mas, por outro lado, todos os conceitos buddhistas de compaixão, bondade amorosa e não-violência são efetivamente baseados sobre uma sabedoria maior. De fato, de tempos em tempos, os mestres do passado ensinaram-nos que, sem sabedoria, todos esses assim chamados "amor, compaixão e não-violência" meramente se tornaram fenômenos que eventualmente os levarão a se tornarem perfeitos co-dependentes. Então, a sabedoria é muito enfatizada. Vocês descobrirão que quase todos os textos buddhistas, eventualmente, se não desde o início, constroem a idéia de sabedoria. O próprio propósito de um método como a meditação é o de cultivar a sabedoria. Não apenas para atingir uma sensação simples, temporal, mas definitivamente para criar sabedoria. E para fazer isso, temos de identificar o que é a sabedoria. E isto, penso eu, poderíamos discutir esta noite — o que é sabedoria?

É muito difícil identificar a sabedoria em linguagem simples, mas penso que a mente que está em sua altura de normalidade é a sabedoria. Quando a mente está absolutamente normal, isso é efetivamente a sabedoria da qual os buddhistas falam. Agora, isto nos leva a uma discussão realmente grande porque, antes de tudo, temos de definir o que é normal. O que é normal para algumas pessoas não é normal para outras. O que é normal para uma cultura não é normal para outras. E é por isto que, do ponto de vista buddhista, identificar uma pessoa normal, sóbria, é muito, muito difícil. Não somos normais do ponto de vista buddhista; não estamos sóbrios. Para definir o que é normal, na maioria da filosofia buddhista, temos três categorias: visão, meditação e ação. E destas três, a primeira e mais importante é a visão. Nossa visão ou idéia — isso precisa ser finalizado. Então, muitos comentários — ou shastras — e muitos cânones buddhistas — ou sutras —  são dedicados a apresentar esta visão. Esta noite, quero compartilhar com vocês uma abordagem muito simples que poderia ser bem útil.

Do ponto de vista buddhista, quando olhamos para este mundo e estes fenômenos, sempre cometemos três erros. Não vamos falar sobre todos os fenômenos ainda; vamos apenas falar sobre nossa mão, por exemplo. Quando olhamos para nossa mão, cometemos três erros. O primeiro erro que cometemos quando olhamos para esta mão é que a vemos como uma mão permanente. Esse é o primeiro grande erro que cometemos. Vocês podem pensar, "Não, nós não cometemos." Mas cometemos. Por exemplo, se eu perguntar a vocês, "Esta é a mesma mão que vocês tinham ontem?", vocês dirão, "Sim". Olhamos para nossa mão e pensamos que esta é exatamente a mesma mão que tínhamos ontem, antes de ontem, um mês atrás. Este é o primeiro erro que cometemos, pensando que esta é uma entidade permanente. E esse é um grande erro, porque não é uma entidade permanente. Ela mudou. Sua mão de ontem não voltará. Ela se foi para sempre. Decaiu. Morreu!

O segundo erro que cometemos quando olhamos para nossa mão é que vemos nossa mão como um todo. Esse é um erro muito grande, novamente. Não há essa tal entidade que vocês chamam de "uma mão". Se forem treinados, não verão uma mão. Verão pelo, ossos, sangue, nervos e componentes diferentes. Mas não olhamos para ela desse modo. Olhamos nossa mão como um todo, o que efetivamente não existe. Esse é o segundo erro.

O terceiro erro que cometemos quando olhamos para nossa mão é que constantemente esquecemos que esta mão é dependente de muitas, muitas causas e condições. Não é apenas dependente de comida e hidratante; é dependente de tudo. A minha mão está se movendo até mesmo pelo fato de este teto não estar caindo sobre ela. Minha mão é absolutamente dependente de tudo — deste microfone, desta mesa, de vocês, do teto, do espaço, dos elementos. Agora, isto não percebemos!

Então, a próxima questão que perguntamos é, "O que está errado? Por que temos de evitar cometer estes erros?" Agora, é importante saber que o buddhismo não é um caminho para desenvolver uma certa meditação, de modo que vocês possam substituir esta mão por uma mão "divina". Essa nunca é a idéia, apesar de poder soar como algo assim porque vocês ouviram sobre técnicas de meditação, mantras, visualizações e assim por diante. Mas não estamos fazendo essas coisas para criar uma nova mão que seja permanente, independente e um todo. Então, o que estamos fazendo aqui? Primeiro, tentamos construir ou estabelecer esta visão para realmente entender que esta mão é impermanente, é interdependente e que não há tal coisa de "uma mão como um todo". De fato, ela consiste de muitos componentes.

Agora, como isso ajuda? Por que temos de saber isso? Quando cometemos estes três erros constantes, passamos por dor. Tenho referido a estes como erros, mas o termo buddhista clássico é "ignorância". Quando temos esta ignorância, ela nos conduz a dor e sofrimento. E isto é muito óbvio. Quantos cremes de hidratantes de mãos estão disponíveis? Tudo porque as pessoas não sabem que não importa que tipo de hidratante de mãos elas usem — esta mão irá se deformar. Mais cedo ou mais tarde, ela irá se desfazer, será comida por pássaros um dia desses. Mas a maioria de nós não sabe disso.

OK, então, agora que sabemos que nossa mão é impermanente, que não é um todo e que é interdependente, deveríamos parar de usar hidratante? Não, de forma alguma! De fato, podemos usar hidratante e comprar mais. Por quê? É pelo fato de ela ser impermanente que o hidratante ajuda. Se nossa mão estivesse seca e ela fosse permanente, a secura seria permanente. Vocês ficariam presos a uma mão seca, desconfortável! Mas como ela é impermanente, o hidratante ajuda. Ele fará sua mão ficar muito suave e macia. Mas também, como vocês sabem que ela é impermanente, finalmente, quando todo o hidratante acabar, vocês não ficarão tão preocupados porque aceitaram o fato de que sua mão é impermanente. Vocês entendem? Esta é a importância desse conhecimento. Agora, isso é o que chamamos de mão "divina" — quando vocês sabem que esta mão não pode ser ajudada permanentemente, que esta mão não pode ser substituída, que esta mão é impermanente e interdependente. Essa é a mão "divina", a mão de Buddha. E efetivamente, acreditem ou não, é o nirvana, é o nirvana em curto prazo, nirvana, já é a iluminação em curto prazo.

Estou usando a mão apenas como um exemplo. Em nossa vida, há muitas coisas como essa — nosso sistema político, nosso sistema econômico, nossas idéias sobre os outros, nossas idéias sobre nós mesmos, sobre a democracia, o caminho, o dinheiro e especialmente sobre relacionamentos. Estou certo que vocês sabem disto. Quando olhamos para os relacionamentos, novamente cometemos estes três erros. Olhamos para o relacionamento como um todo, não em partes. Por exemplo, não vemos que nosso companheiro tem todos estes altos e baixos. Estamos apenas apegados a uma idéia abstrata do relacionamento como um todo. Mas realmente não funciona assim, funciona? Quando vocês estão como alguém, nosso ego e o ego dos outros caminham um sobre os dedos dos pés dos outros. E por quê? Porque nessa hora, torna-se clara a verdadeira natureza de que não há tal coisa como "um relacionamento como um todo" . Ela vem em partes, em porções e pedaços. Quando temos um relacionamento, temos de aceitar que isto vem no pacote.

E o relacionamento é impermanente, também. Isso é muito óbvio, estou certo. Muitos de nós atravessamos isto pelo menos uma vez, senão cinco ou seis vezes! Mas não pára. Ainda pensamos que um dia teremos um relacionamento perfeito, e este relacionamento perfeito é geralmente um relacionamento permanente, um relacionamento independente e um relacionamento como um todo. Nunca olhamos para ele em partes. Esta é efetivamente a visão buddhista. Vocês podem pensar que isto é supersimplificado, mas isto é efetivamente ensinado no Avatamsaka Sutra, no Lankavatara Sutra e em todos os ensinamentos buddhistas clássicos. E como eu disse antes, o buddhismo é orientado à sabedoria; então, quando falamos sobre a sabedoria, estamos falando sobre ver algo sem qualquer interferência de criação cultural ou social, de educação ou das próprias inibições. Ver a verdade, basicamente.

Onde a compaixão encaixa-se aqui? Onde a não-violência encaixa-se aqui? Muito. Se vocês tiverem esta grande visão de que tudo é impermanente, interdependente e que não há tal coisa de um todo, este mesmo entendimento é não apenas a sabedoria, é empatia. Ajuda muito saber que não importa o que eu faça — cirurgia plástica, lipoaspiração — minha mão está mais e mais próxima da decadência. Então, quando vocês olharem para o seu companheiro, que está completamente ocupado, acreditando cegamente que este problema pode ser curado com tônico de ginseng ou o que quer que seja, como vocês entenderam a verdade, ou a visão, ao invés de algum tipo de arrogância, vocês vão querer fazer esta pessoa entender esta verdade. Isto é compaixão. E isto também é o ato de não-violência. Essa é a visão buddhista.

Meu entendimento geral é que o mundo, como ele é, é parte do todo, mas você está obviamente dizendo que não é. Entendendo a partir de você, diria que todos somos apenas partículas...

Sim.

...que tudo são apenas partículas. Mas essas partículas não são parte de um todo maior e eventualmente não formam algo que é um todo?

Sim, mas esse todo apenas existe como uma suposição.

Uma suposição do quê?

Uma suposição que vem da ignorância, efetivamente, nada mais. É um pouco desanimador ouvir isto, não é? Mas essa é a verdade.

Não, efetivamente posso entender isso. Mas não entendo porque as pessoas me disseram, "Quando você medita, você é uma parte do todo". O que é isso?

Quando você medita, você é uma parte do todo? OK. A meditação é uma técnica. Quando falamos sobre a visão, temos de ser muito brutais. Não há escapatória. Temos de construir a verdade. Porém, a técnica da meditação é ensinada por todos os tipos de pessoas e não é geralmente acompanhada pela boa lógica.

Esta é uma pergunta muito boa porque não muitas pessoas estão interessadas na visão. Muitas pessoas estão interessadas na meditação porque suponho que as pessoas sejam muito orientadas às sensações, e a meditação é de um tipo tranqüilizante. É algo que está na moda, também. Mas quando falamos sobre a verdade, ou a visão, não é muito legal de ouvir. É algo intangível e nada há para se segurar.

Fere nosso ego.

Sim. E portanto, a meditação deve sempre ser acompanhada pela sabedoria. Isto é o que eu estava dizendo no começo. O buddhismo nunca deve ser um caminho orientado à ética e à moralidade. A ética e a moral devem vir em segundo lugar. A sabedoria, ou a verdade, é a coisa mais importante.


Falaremos sobre meditação agora. Não sei se "meditação" é a tradução correta da palavra tibetana gom ou da palavra sânscrita yoga. Yoga é traduzido como naljor em tibetano, e naljor é uma palavra muito grande. Nal significa normalidade. Jor significa riqueza. Então, quando vocês estão meditando, idealmente, o que supostamente estão fazendo é cultivar a riqueza da normalidade. Agora, as próprias palavras yoga e gom implicam que elas têm a ver com ficar acostumado à visão da qual estávamos falando antes.

A maioria das técnicas de meditação são um pouco com um placebo ou um remédio falsificado. Não estou inventando isto — isto foi ensinado pelo próprio Buddha. Ele disse que, como meditadores, o desafio absoluto e final é o próprio caminho que estamos praticando. Isso é uma afirmação muito, muito grande. Ele até mesmo deu um bom exemplo: pegar um bote para chegar à outra margem. Se estivem indo para a outra margem, vocês tem de pegar um bote. Uma vez que alcancem a outra margem, vocês têm de abandonar o bote. Se ainda estiverem no bote, não estarão na outra margem. Vocês descobrirão que muitos buddhistas são muito apegados ao bote, ao buddhismo. Nem mesmo sabem que o Buddha, por exemplo, nunca foi um buddhista. Este buddhismo cai na segunda categoria que mencionei anteriormente — o todo, não a parte componente.

Mas tendo dito isso, ele é o único modo de ir, porque somos como um paciente e o Buddha é como um médico. A doença que temos é esta confusão, como olhar uma miragem e acreditar que a miragem é água. E estamos com tanta sede que realmente precisamos de um pouco d'água. Apenas alguns de nós ficam aliviados e não sentem mais desapontamento quando nosso professor nos diz, "Ei, olhe, isso é uma miragem, não água." Mesmo que nosso professor nos diga que é apenas uma miragem, a maioria de nós não quer acreditar nisto. Queremos acreditar que é água. Portanto, por causa da compaixão e dos meios hábeis, o Buddha e os nossos professores vieram a lidar com nossas expectativas. Por esta razão, vocês descobrirão preces aparentemente teístas no buddhismo. Especialmente, se forem ao Tibet, ele se torna ainda mais colorido e mais caótico — velas, lamparinas de manteiga, rodas de orações, bandeiras de orações, templos e tudo o mais.

Ashoka foi um dos maiores reis buddhistas e viveu cerca de quatrocentos anos depois de o Buddha ter morrido. No buddhismo pré-Ashoka, não havia estátuas buddhistas ou símbolos porque, suponho, estavam todos ocupados pensando sobre a visão. Mas o tempo se degenerou e de alguma forma desenvolvemos a noção de que o caminho tem de ser complicado. Pedimos por estas complicações, então agora temos muitos, muitos caminhos complicados — visualizações, mantras e assim por diante. Mas nunca devemos esquecer que todo este caminho é como um bote, apenas para ajudá-los a alcançar a outra margem. E neste caso, a outra margem acontece de ser o entendimento de que minha mão dacairá mais cedo ou mais tarde, que não há essa tal de "mão" e que minha mão é uma realidade dependente.

De qualquer modo, a meditação é uma técnica que nos faz ficarmos acostumados com esta visão de novo e de novo. É uma técnica, não a meta. O caminho não é a meta. A meditação é uma técnica; é uma pele que vocês têm de descascar. Todo o caminho buddhista é um pouco como uma cebola. Vocês vêem uma camada de pele e, conforme descascam a primeira camada, pensam, "Oh, é isto. Isto é minha liberação, isto é minha iluminação". Então, depois de um tempo, percebem que é apenas uma outra de suas próprias fantasias fabricadas, e descascam isso. Conforme descascam camada após camada, terminam encontrando nada dentro. Uma vez que os buddhistas descubram que nada há, eles ficam felizes. É muito importante nos libertarmos deste fardo de precisar encontrar algo dentro — como a alma ou algo precioso, que viajará para o céu se formos afortunados ou para o infernos se não formos afortunados — porque, de acordo com o buddhismo, essa não é a visão correta. De acordo com o buddhismo, temos de descascar estas inibições ou travas que temos. E enfatizo que esse buddhismo é, para muitos buddhistas, uma inibição muito sofisticada e cuidadosamente projetada que temos de usar agora.

É claro, vocês sabem o que é meditação — sentar ereto, respirar normalmente e assim por diante. De qualquer modo, quando alguém está meditando, há um sentido de alguém fazendo nada. Isto é muito bom, efetivamente. A meditação é basicamente fazer nada, absolutamente nada. Isso é difícil! Milhares de milhões de pessoas querem fazer nada. Não atingimos isso ainda porque precisamos fazer coisas, se não assistir televisão, então ler um romance, ir a uma festa, cantar mantras, fazer piercings em nossa pele ou tingir nosso cabelo. Temos de fazer algo! A razão é que, quando não fazemos nada, nos sentimos sozinhos, não? E isso é algo que não gostamos porque há uma insegurança básica dentro de nós, e essa insegurança é efetivamente não saber se existimos ou não. E, a fim de nos convencermos de que existimos, precisamos fazer sexo, fazer compras ou fazer algo. A meditação é o oposto. A meditação é sempre encarar a verdade. Então, como encaramos a verdade? Fazendo nada. Isso é difícil!

Uma outra coisa, por que meditamos? Se quiserem seguir o caminho do Buddha, sua meta não é a de ser feliz. A felicidade não é nossa meta. A meta buddhista não é a felicidade. É muito importante saber isso. Então, é por isto que o buddhismo nunca deve ser entendido como terapia. O buddhismo é o oposto. O buddhismo realmente, realmente destrói! É muito deprimente. Se realmente quiserem praticar o buddhismo, ele realmente pode fazê-los ficar desorientados. Mas depois de algum tempo, vocês alcançam um certo nível, onde realizam que nada há a ser desorientado e então alcançam uma certa confiança. Então, suponho, vocês terão muita alegria, mas eu ainda não alcancei este estágio. Isso é apenas o que me disseram. Mas uma coisa que definitivamente sei é que o buddhismo nada tem a ver com felicidade. Por quê? Porque a felicidade é uma coisa instável, impermanente. A felicidade de amanhã é outra coisa depois de amanhã.

Quando os buddhistas dizem, "Possam todos os seres sencientes ser felizes", o que eles estão dizendo? Quando falamos sobre felicidade, estamos falando sobre entender a verdade. Nada tem a ver com um sentimento. E vocês sabem que nossa felicidade mudou muito. Há pessoas com as quais nos excitamos ao ponto de nos tornarmos meio alegres quando as encontramos pela primeira vez. Depois de cerca de um ano ou dois, até mesmo a visão delas as aborrece. Estas coisas acontecem!

Então, agora, de volta à meditação. Fazer nada, isso é um trabalho muito difícil. Há duas coisas que são difíceis. Fazer nada e pensar que vocês podem fazer o que quer que gostem, viver em uma sociedade livre. Isso é muito, muito difícil! Mesmo que haja alguém que lhes dê a liberdade absoluta, vocês não a usarão. Não temos coragem. Não temos confiança para fazer o que quer que gostemos. Vocês podem pensar que são membros de uma sociedade livre. Não, vocês não estão livres dentro de suas próprias inibições. Isso difícil. Estas são duas coisas difíceis.

A razão pela qual as pessoas têm tanto medo de ser livres é porque elas têm de encarar seu eu real, com qualquer maldade ou bondade que ele possa ter?

Em primeiro lugar, os buddhistas não acreditam realmente em alguém lhes dando liberdade. Em segundo, não usamos a liberdade porque temos um ego. Por exemplo, conheço algumas pessoas que gastam muito dinheiro comprando diferentes tipos de gravatas. Cada gravata alimentaria pelo menos quinhentas pessoas etíopes. Não sei porque elas usam gravatas porque, de todas as vestes que tempos, ela é a mais inútil, não é? Vocês não pode guardar dinheiro nela — ela não tem bolsos. Ela não os mantém quentes. Parece um peixe pendurado no pescoço. Estamos completamente livres para não usar uma, mas como queremos parecer bons, como precisamos nos adaptar a uma cerca sociedade, ou como precisamos ser convidados para uma certa festa que requer que usemos uma gravata, nós usamos uma. E é assim que terminamos fazendo tudo o que nos atam.

Você estava falando sobre não usar gravatas e eu concordo completamente com você. Mas li em algum lugar que a cor dos mantos dos monges significa algo. Por que é que você deve usar uma tipo específico de código de vestimenta?

Como o buddhismo viajou para diferentes partes do mundo, todos estes aspectos culturais contribuíram muito, e essa mesma contribuição também pode enganar as pessoas. É muito interessante. Em primeiro lugar, não há essa coisa de hierarquia. Em segundo lugar, se realmente precisarem de uma hierarquia, a entidade mais elevada no buddhismo é a verdade do Dharma, então o Buddha, aquele que ensinou, então a Sangha ou a comunidade. Então, há esse arranjo institucional. Essa é uma das poucas instituições ou símbolos que o buddhismo teorético tem.

Mas além disso, há os mantos. Quando o Buddha estava vivo, ele disse aos seus monges para vestirem uma de três cores. Eles poderiam escolher azul, vermelho ou amarelo. E idealmente o material deveria ser material descartado pelas pessoas. Vocês então têm de tingi-los com uma destas três cores, apenas para lembrar a si mesmos que vocês tomaram tal e tal voto, e para ajudá-los a manter a disciplina. Além deste, não há outro significado nisto. Quando meditam, normalmente vocês são aconselhados a se sentar eretos. Não há razão pela qual não possam deitar e meditar. Mas são encorajados a se sentar eretos e meditar. Por quê? Isto ajuda a se disciplinarem. Há mais chance de caírem no sono se estiverem deitados e meditando, basicamente. A maioria dos símbolos ou tradições buddhistas, clássicos ou teoréticos, têm a ver com disciplina.

Estou me perguntando o quão importante a visão realmente é. Alguém não pode ser uma pessoa perfeitamente normal sem ter tais e tais crenças, sem seguir tal e tal visão? Ou é realmente importante, e alguém tem de tentar e escrutinar sua visão para efetivamente atingir uma certa normalidade?

Quando estamos falando sobre a visão, há muitos níveis diferentes de visão. Claro, todos têm uma visão. Uma visão é basicamente uma idéia e, baseados nessa idéia, nós funcionamos. Por exemplo, o BMW é um grande carro. Essa é uma visão. Então, por dias e noites vocês trabalham duro para comprar um. Isso é a meditação. E finalmente vocês conseguem um; então vocês estão sempre preocupados sobre se ele será arranhado ou não. Isso é ação. Visão, meditação a ação. Tudo tem isso. Mas, claro, os buddhistas disputariam todas as outras visões. Diriam que uma visão ordinária tem muitas faltas. É por isso que eles a chamam de visão relativa. Por quê? Porque talvez um ano depois vocês não gostem de seu BMW; preferirão uma Ferrari ao invés dele. Agora, isso prova que o BMW não é a felicidade última ou a verdade última. Então, o que define a visão última é algo que não mudará, algo que não é dependente de qualquer outra causa e condição.

Então, isto é o que quero dizer. Nossa visão sobre nossa mão é totalmente errada. Pensamos que esta é a mesma mão de ontem. Se eu lhes perguntar, "Vocês estavam lá ontem?", sua resposta será "Sim", como se "vocês de ontem" e "vocês de hoje" fossem os mesmos. Mas não são. Lá vocês vão. Vocês têm uma visão errada lá! É um hábito. E então quando pergunto, "Quem é este 'você'?", vocês apontam para todo lugar — para seus dedos, seu nariz, seu peito. Vocês têm toda uma idéia abstrata de "vocês". Essa é uma visão errônea novamente porque não há uma entidade sólida, tangível, à qual vocês possam se referir como "vocês". De qualquer modo, vamos falar sobre a ação agora. Novamente, a ação tem de ser baseada na visão. A visão é a coisa mais importante, OK? A meditação é para ser acostumada a esta visão que estabelecemos. A ação também é para melhorar a visão. Há muitas ações buddhistas, como meditação, visualização, compaixão, generosidade e assim por diante. Mas todas estas ações buddhistas podem ser abreviadas em duas coisas baseadas na visão: escândalo e elegância. Por que escândalo? É muito necessário porque, se vocês não forem escandalosos, se tornarão escravos desta visão errônea. Vão querer usar uma gravata e então passarão toda a noite sem saber qual gravata usar. Estão a perdendo novamente aqui! Não sendo escandalosos o bastante!

Se forem escandalosos e talvez forem encontrar o primeiro-ministro para jantar, vocês poderiam usar um peixe vivo porque, baseados na visão, um peixe vivo seria muito mais valoroso que este pedaço inútil de tecido. Mas então, novamente, a ação tem de ser acompanhada pela elegância. Por quê? Porque, como buddhistas, como alguém que sabe o que é a visão, vocês têm uma responsabilidade. A compaixão tem de estar lá. Vocês não devem ir a um jantar com um peixe morto pendurado ao redor do pescoço. Como buddhistas, vocês não devem! Devem usar uma gravata muito elegante, que combinará com seus sapatos e seu cinto. Devem colocá-la adequadamente e durante todo o tempo devem saber, "Estou fazendo a coisa mais patética e inútil que existe". Estas duas coisas são a ação buddhista.

Então, agora apenas para resumir. A visão buddhista de olhar para nossa mão e para os fenômenos: tudo é impermanente, interdependente e não há essa coisa de "todo". Essa é a visão. Meditação é melhorar a visão. Para se acostumarem a esta visão, vocês tentam cortar todas estas inibições. Mas como? Fazendo nada. A ação é melhorar ainda mais essa visão. Vocês tentam praticar o escândalo e a elegância juntos. Não podem praticá-los um depois do outro. Vocês têm praticá-los juntos.

Claro, não fiz justiça não à vasta e profunda sabedoria de Shakyamuni. mas espero que alguns de vocês possam usar esta abordagem para a porta para o caminho infinito do buddhismo. Obrigado.

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adaptado de www.siddharthasintent.org