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O principal assunto deste capítulo, o
ensinamento sobre a dificuldade de se obter as liberdades e vantagens, é
precedido por uma explicação sobre a forma apropriada de se ouvir a qualquer
instrução espiritual.
I.
A forma apropriada de se ouvir um ensinamento espiritual
A atitude apropriada de se ouvir os
ensinamentos tem dois aspectos: a atitude e a conduta corretas.
1. Atitude
A atitude certa combina a atitude vasta
da bodhichitta, a mente da iluminação, e os vastos meios hábeis do
Mantrayana Secreto.
1.1. A
vasta atitude da bodhichitta
Não há um único ser no samsara, este
oceano imenso de sofrimento, que no curso de tempos sem começo não tenha
sido nosso pai ou mãe. Quando eles foram nossos pais, o único pensamento
desses seres era nos criar com a maior bondade possível, protegendo-nos com
grande amor e dando-nos o melhor de sua própria comida e vestimenta.
Todos estes seres, que já foram tão
bondosos conosco, querem ser felizes, mas eles não têm a menor idéia de
como por em prática o que trás a felicidade, os dez atos positivos. Nenhum
deles quer sofrer, mas eles não sabem como abandonar os dez atos negativos na
raiz de todo o sofrimento. O desejo mais profundo deles e o que eles fazem de
fato contradizem um ao outro. Pobres seres, perdidos e confusos, como um homem
cego abandonado no meio de uma planície vazia!
Diga a si próprio: "Será para o
bem-estar deles que eu vou ouvir o Dharma profundo e colocá-lo em prática.
Eu conduzirei todos esses seres, meus pais, atormentados pelas misérias dos
seis reinos de existência, para o estado búddhico onisciente, libertando-os
de todos os fenômenos kármicos, padrões de hábitos e sofrimentos de cada
um dos seis reinos". É importante que se tenha essa atitude cada vez que
você ouvir aos ensinamentos ou praticá-los.
Sempre que você fizer algo positivo,
seja de maior ou menor importância, é indispensável aumentar isso através
dos três métodos supremos. Antes de começar, desperte a bodhichitta como um
meio hábil que assegurará que o ato vai tornar-se uma fonte benéfica para o
futuro. Enquanto executa o ato, evite envolver-se com qualquer conceitualização,
de forma que o mérito não seja destruído pelas circunstâncias. No final,
sele o ato apropriadamente dedicando o mérito, o que assegurará que o mesmo
continuamente crescerá.
A forma como você ouve ao Dharma é
muito importante. Contudo, mais importante ainda é a motivação com a qual
você o ouve.
O que faz um ato bom ou mau?
Não como ele é visto, nem se ele é grande ou pequeno.
Mas a boa ou má motivação por trás dele.
Não importa quantos ensinamentos você
tenha ouvido, estar motivado por preocupações comuns — tais como o desejo
de grandeza, fama ou o que quer que seja — não é a forma do Dharma puro.
Assim, antes de tudo, é da mais alta importância que se observe o interior e
mude sua motivação. Se você puder corrigir sua atitude, os meios hábeis
permearão seus atos positivos, e você terá iniciado o caminho dos grande
seres. Se você não puder, você pode até pensar que está estudando ou
praticando o Dharma, mas isso não será mais do que uma aparência do daquilo
que deveria ser. Por isso, sempre que você ouvir aos ensinamentos ou sempre
que você praticar, seja meditando em uma deidade, fazendo prosternações e circumbulações,
ou recitando mantras — até mesmo um simples mani — é sempre
essencial que faça-se surgir a bodhichitta.
1.2. Os
vastos meios hábeis: a atitude do Mantrayana secreto
A Lanterna dos Três Métodos
fala do Mantrayana Secreto:
Tem o mesmo objetivo, mas é
livre de toda confusão,
É rico em métodos e sem dificuldades.
É para aqueles com faculdades aguçadas.
O Veículo do Mantra é sublime.
Pode-se entrar no Mantrayana por muitos
caminhos. Ele possui muitos métodos para a acumulação de mérito e
sabedoria, e meios hábeis profundos para fazer o potencial dentro de nós
manifestar-se sem termos que nos submeter a grandes austeridades. A base para
esse método é a forma que nós direcionamos nossas aspirações:
Tudo é circunstancial
e depende inteiramente da nossa aspiração.
Não considere o lugar onde o Dharma
está sendo ensinado, o professor, os ensinamentos e etc, como comuns e
impuros. A medida que você ouve, mantenha as cinco perfeições de forma
clara na mente:
O lugar perfeito é o refúgio de
extensão absoluta, chamado Akanishtha, "O Insuperável". O
professor perfeito é Samantabhadra, o dharmakaya. A assembléia perfeita
consiste dos bodhisattvas masculinos e femininos e as deidades da linhagem
mental dos Conquistadores e da linhagem simbólica dos Vidyadharas.
Ou você pode considerar que o lugar
onde o Dharma está sendo ensinado é o Palácio da Luz de Lótus da Montanha
Cor de Cobre Gloriosa, o professor que ensina é Padmasambhava de Uddiyana, e
nós, a audiência, somos os Oito Vidyadharas, os Vinte e Cinco Discípulos, e
os dakas e dakinis. Ou considere que o lugar perfeito é o Campo Búdico
Oriental, Alegria Manifesta, onde o professor perfeito Vajrasattva, o perfeito
sambhogakaya, está ensinando a assembléia das divindades da Família Vajra e
o Bodhisattvas masculinos e femininos.
Igualmente bem, o lugar perfeito onde o
Dharma está sendo ensinado, pode ser o Campo Búdico Ocidental, a Beatitude,
o professor perfeito o Buddha Amitabha, e a assembléia dos Bodhisattvas
masculinos e femininos, e divindades da família Lótus.
Sempre que for o caso, o ensinamento é
aquele do Grande Veículo, e o tempo é a roda sempre giratória do tempo.
Estas visualizações sã para ajudar-nos a compreender como as coisas são na
realidade. Não é que estejamos temporariamente criando algo que não existe
de fato.
O professor incorpora a essência de
todos os Buddhas através dos três tempos. Ele é a união das Três Jóias:
seu corpo é a Sangha, sua palavra é o Dharma, sua mente o Buddha. Ele é a
união das Três Raízes: seu corpo é o professor, sua palavra o yidam, sua
mente as dakini. Ele é a união dos três kayas: seu corpo é o nirmanakaya,
sua palavra o sambhogakaya, sua mente o dharmakaya. Ele é a corporificação
de todos os Buddhas do passado, fonte de todos os Buddhas do futuro e o
representante de todos os Buddhas do presente. Uma vez que ele aceita como
seus discípulos seres degenerados como nós, os quais nenhum dos Buddhas do
Bom Kalpa poderia ajudar, sua compaixão e bênçãos excede aquela de todos
os Buddhas.
O professor é o Buddha, o
professor é o Dharma,
O professor é também a Sangha.
O professor é aquele que realiza todas as coisas.
O professor é o Glorioso Vajradhara.
Nós, a assembléia reunida para ouvir
aos ensinamentos, usamos nossa própria natureza de Buddha, o suporte da nossa
preciosa vida humana, a circunstância de termos um amigo espiritual e o método
de seguirmos seus conselhos, para tornarmos os Buddhas do futuro. Como o Hevajra
Tantra diz:
Todos os seres são Buddhas,
Mas isto é ocultado pelas impurezas que se acumulam.
Quando suas impurezas são purificadas, o estado búddhico é revelado.
2. Conduta
A conduta correta quando se ouve aos
ensinamentos é descrita em termos do que se evitar e do que se fazer.
2.1. O que
evitar
O que se evitar inclui os três
defeitos do pote, as seis impurezas e as cinco formas de recordar.
2.1.1. Os
três defeitos do pote
Não ouvir é ser como um pote virado
de cabeça para baixo. Não ser capaz de reter o que você ouve é ser como um
pote com um buraco. Misturar as emoções negativas com o que você ouve é
ser como um pote com veneno. O pote virado de cabeça para baixo. Quando você
estiver ouvindo aos ensinamentos, ouça ao que está sendo dito e não
deixe-se estar distraído por mais nada. Doutra forma, você será como um
pote de cabeça para baixo, no qual um líquido é lançado. Embora você
esteja fisicamente presente, você não ouve uma palavra do ensinamento.
O pote com um buraco. Se você apenas
ouvir, sem conseguir lembrar nada do que você ouve ou compreende, você será
como um pote com um buraco: não importa quanto líqüido seja lançado nele,
nada pode ser retido. Não importa quantos ensinamentos você ouça, você
nunca assimila ou os coloca em prática.
O pote contendo veneno. Se você ouvir
aos ensinamentos com a atitude errada, tal como o desejo de tornar-se grande e
famoso, ou com a mente cheia dos cinco venenos, o Dharma não terá o efeito
esperado de ajudar a sua mente; e ele também será transformado em algo que não
é, de forma alguma, Dharma, semelhante a um néctar lançado num pote
contendo veneno.
Essa é a razão do sábio indiano,
Padampa Sangye, ter dito:
Ouça aos ensinamentos como
um veado ouvindo música;
Contemple-as como um nômade do norte tosquiando uma ovelha;
Medite neles como um mudo saboreando um alimento;
Pratique-os como um iaque faminto comento grama;
Atinja seus resultados como o sol surgindo por detrás das nuvens.
Quando estiver ouvindo aos
ensinamentos, você deve ser como um veado hipnotizado pelo som do vina, de
tal forma que não percebe o caçador escondido atirando uma flecha
envenenada. Ponha suas mãos juntas e ouça, tendo cada poro de seu corpo em
ardência e com seus olhos molhados com lágrimas, nunca permitindo qualquer
outro pensamento atravessar o caminho.
Não é bom ouvir somente com o corpo
fisicamente presente, enquanto sua mente se desconecta, vagueando atrás dos
pensamentos e sua palavra fica solta envolvida com rios de fofoca, falando o
que gosta e olhando para tudo ao redor. Quando estiver ouvindo a ensinamentos,
você deve até mesmo parar de recitar mantras e orações, ou quaisquer
outras atividades meritórias que você possa estar fazendo.
Após ter ouvido apropriadamente a um
ensinamento como foi ensinado, é então também importante que se retenha o
significado daquilo que foi dito sem esquecimento, e continuamente pô-lo em
prática. Pois, como o próprio Grande Sábio disse:
Eu mostrei para vocês os métodos
Que conduzem à liberação.
Mas vocês precisam saber
Que a liberação depende de vocês mesmos.
O professor dá instruções ao discípulo,
explicando como ouvir ao Dharma e como praticá-lo, como abandonar os atos
negativos, como executar os atos positivos, e como praticar. Fica por conta do
discípulo a lembrança das instruções, sem esquecer nada; pô-las em prática;
e realizá-las.
Apenas ouvir ao Dharma, talvez seja de
algum benefício por sí só. Mas, a menos que você lembre aquilo que você
ouviu, você não terá o menor conhecimento das palavras e nem do significado
do ensinamento — o que não diferente de não se ter ouvido nada.
Se você lembrar dos ensinamentos, mas
misturá-los com suas emoções negativas, eles nunca serão o Dharma puro.
Como o incomparável Dagpo Rinpoche ensina:
A menos que você pratique o
Dharma de acordo com o Dharma,
O Dharma transforma-se na causa de renascimentos malignos.
Livre-se de cada pensamento errôneo
com respeito ao professor e o Dharma, não critique ou faça o uso errado de
seus irmãos espirituais e companheiros, esteja liberto do orgulho e do
desprezo, abandone todos os pensamentos maus. Pois todas essas coisas causam
renascimentos inferiores.
2.1.2. Os
seis venenos
Na Argumentação Bem Explicada
é dito:
Orgulho, falta de fé e
falta de esforço,
Distrações externas, tensão interna e desencorajamento;
Estas são os seis venenos.
Evite estes seis: orgulhosamente
crer-se superior ao professor que está explicando o Dharma, não confiar no Lama
e nos seus ensinamentos, fracassar em aplicar a si o Dharma, distrair-se
por eventos externos, focar seus cinco sentidos muito intensamente para dentro
de sí, e desencorajar-se se, por exemplo, um ensinamento é muito longo.
De todas as emoções negativas, o
orgulho e a inveja são as mais difíceis de serem reconhecidas. Por isso,
examine sua mente minuciosamente. Qualquer sentimento, mínimo que seja, de
que há algo de especial em suas próprias qualidades, espirituais ou
materiais, fará você cego às suas próprias faltas e insensível às boas
qualidades dos outros. Assim, renuncie ao orgulho e sempre tome um assento
mais inferior.
Se você não tiver fé, o acesso ao
Dharma está bloqueado. Dos quatro tipos de fé, aspire pela fé que é
irreversível (fé vívida, fé desejosa, fé confiante, e fé irreversível).
Seu interesse no Dharma é a base do
que você alcançará. Então, dependendo se seu grau de interesse é
superior, médio ou inferior, você se tornara praticante superior, médio ou
inferior.
E se você, de forma nenhuma, estiver interessado no Dharma, não haverá, de
forma alguma, resultados. Como um para provérbio diz:
O Dharma não é propriedade
de ninguém. Ele pertence àquele que estiver mais interessado.
O próprio Buddha obteve os
ensinamentos ao preço de centenas de austeridades. Para obter um simples
verso de quatro linhas, ele perfurou buracos em sua própria carne para serem
usados como oferta de luzes, preenchendo tais buracos com óleo e colocando
neles milhares de pavios acesos. Ele pulou dentro de fossos flamejantes, e
perfurou seu corpo com mil pregos.
Mesmo que você tenha que enfrentar
infernos em chamas ou afiadas lâminas de navalhas,
Busque o Dharma até que morra.
Ouça aos ensinamentos, por essa razão,
com grande esforço, ignorando o calor, o frio e todas as outras adversidades.
A tendência da consciência ficar
absorta com os objetos dos seis sentidos é a raiz de todas as alucinações
do samsara e a fonte de todos os sofrimentos. É assim como a mariposa morre
na chama da vela, pois devido à sua consciência visual é atraída pelas
formas; como o cervo é morto pelo caçador por ser atraído pelos sons; como
as abelhas são engolidas pelas plantas carnívoras, seduzidas por seu cheiro;
como o peixe é pego, com seu paladar o atraindo pelo sabor da isca; como os
elefantes afundam no pântano pelo prazer da sensação física causada pela
lama. Da mesma forma, sempre que você ouvir ao Dharma, a um ensinamento,
quando meditar ou praticar, é importante não seguir as tendências do
passado, não sonhar sobre o futuro e não permitir que seus pensamentos
daquele momento sejam distraídos por nada ao seu redor. Como Gyalse Rinpoche
ensina:
Suas alegria e dores do
passado são como desenhos sobre a água:
Nenhum traço deles permanece. Não corra atrás deles!
Mas, caso eles surjam em sua mente, reflita como o sucesso e o fracasso vêm
e vão.
Há qualquer outro objetivo no Dharma, recitadores de mani?
Seus projetos e planos para
o futuro são como redes lançadas no leito de um rio seco:
Eles nunca te darão o que você quer. Limite seus desejos e aspirações!
Mas, caso eles surjam em sua mente, pense o quão incerto isso será quando
você morrer.
Vocês conseguem tempo para qualquer outra coisa além do Dharma,
recitadores de mani?
Seus trabalho presente é
como um serviço em um sonho.
Uma vez que todos tais esforços são sem objetivos, lance-os a parte.
Considere até mesmo seus vencimentos honestos sem qualquer apego.
As atividades são sem essência, recitadores de mani!
Entre as sessões de meditação,
aprenda a controlar dessa forma todos os
pensamentos surgindo dos três venenos;
Até que todos os pensamentos e percepções surjam como o dharmakaya,
Isto é indispensável — lembrar sempre que você precisar,
Não dê rédeas aos pensamentos iludidos, recitadores de mani!
Também é dito:
Não convide o futuro. Se
você o convidar,
Você é como o pai da Lua Famosa!
Isto refere-se à história de um homem
pobre que achou um grande monte de cevada. Ele colocou tudo em um grande saco,
pendurou na viga de uma casa, e deitou-se bem debaixo e começou a sonhar
acordado. "Esta cevada vai fazer-me uma pessoa bem rica", ele
pensou. "Uma vez rico, eu vou conseguir uma esposa... ela vai ter um
menino... Como vou chamá-lo?"
Foi naquele momento que a lua apareceu,
e ele decidiu chamar seu filho de Lua Famosa. Contudo, durante todo o tempo um
rato estava roendo a corda que segurava o saco de cevada. A corda subitamente
partiu-se com um estalo, o saco caiu sobre o homem e ele morreu.
Tais sonhos sobre o passado e o futuro
nunca se realizarão, e são apenas uma distração. Abandone todos eles. Seja
atento e ouça com atenção e cuidado.
Não focalize muito intensamente,
escolhendo palavras individuais ou partes, como um urso dremo desencavando
marmotas — toda vez que você lança mão de um item, você esquece o
anterior, e nunca consegue compreender o todo. Muita concentração também
leva à sonolência. No lugar disso, mantenha um balanço entre o rigor e a
frouxidão.
Uma vez, no passado, Ananda estava
ensinando Shrona a meditar. Shrona estava tendo muita dificuldade para
compreender da forma correta. Algumas vezes ele ficava muito tenso, noutras
vezes, muito relaxado. Shrona decidiu discutir o assunto como o Buddha, o qual
perguntou a ele:
"Quando você era um leigo, você era um bom tocador de vina, não
era?"
"Sim, eu tocava muito bem."
"Sua vina soava melhor quando as
cordas estavam muito frouxas ou quando elas estavam muito esticadas?"
"O instrumento soava melhor quando
as cordas não estavam nem muito esticadas, e nem muito frouxas."
"É o mesmo para sua mente,"
disse o Buddha; e praticando com aquele conselho Shrona alcançou o seu
objetivo.
Machig Labdrön diz:
Esteja firmemente
concentrado e vagamente relaxado:
Aqui está um ponto essencial para a Visão.
Não deixe sua mente ficar muito tensa ou muito concentrada internamente;
Deixe seus sentidos estarem naturalmente à vontade, equilibrada entre a
tensão e o relaxamento.
Você não deve se cansar de ouvir aos
ensinamentos. Não se sinta desencorajado quando ficar com fome ou sede
durante um ensinamento, que continua por muito tempo, ou quando você tiver
que enfrentar desconforto causado pelo vento, sol, chuva e etc. Simplesmente
fique feliz por você ser detentor nesse momento das liberdades e vantagens da
vida humana, por você ter encontrado um professor autêntico, e por você ser
capaz de ouvir às suas instruções profundas.
O fato de que você está neste momento
ouvindo ao Dharma profundo é o fruto de méritos acumulados durante inumeráveis
kalpas. É como se por toda sua vida você só conseguisse comer uma única
refeição num espaço de tempo em que cem refeições deveriam ser feitas.
Assim, é imperativo que se ouça com alegria, fazendo votos de suportar o
calor, o frio e quaisquer provações e dificuldades que possam surgir, a fim
de se receber estes ensinamentos.
2.1.3. As
cinco formas erradas de se lembrar
Evite lembrar as palavras,
mas esquecer o significado,
Ou lembrar o significado, mas esquecer as palavras.
Evite lembrar ambos, sem ter compreensão,
Lembrar fora de ordem, ou lembrar incorretamente.
Não dê importância indevida a formas
elegantes de discursos, sem fazer qualquer tentativa de analisar o significado
profundo das palavras, como uma criança coletando flores. As palavras somente
não são de benefício para a mente. Por outro lado, não desconsidere a
forma na qual os ensinamentos são expressados, como sendo apenas palavras e
por isso dispensáveis. Pois, mesmo que você lembre o significado profundo,
você não mais terá os meios através dos quais expressar os ensinamentos.
As palavras e os significados terão perdido sua conexão.
Se você lembrar dos ensinamentos sem
identificar os diferentes níveis — o significado oportuno, o significado
real e o significado indireto — você ficará confuso quanto às palavras a
serem utilizadas. Isto pode te conduzir para longe do Dharma verdadeiro. Se
você lembrar fora de ordem, você vai misturar a seqüência apropriada do
ensinamento, e cada vez que você ouvir, explicar ou meditar no ensinamento, a
confusão será multiplicada. Se você lembrar incorretamente o que foi dito,
idéias errôneas sem fim proliferarão. Isto estragará sua mente e degradará
o Dharma. Evite todos esses erros e lembre cada ponto — as palavras, o
significado e a ordem dos ensinamentos — sem qualquer erro. Mesmo que o
ensinamento seja longo e difícil, não sinta-se desencorajado, e considere
que haverá um fim; persevere. E mesmo que o ensinamento seja simples e curto,
não o desvalorize como sendo algo elementar.
2.2. O que
fazer
A conduta a ser adotada enquanto se
ouve aos ensinamentos é explicada como as quatro metáforas, as seis perfeições
transcendentes, e outros modos de conduta.
2.2.1. As
quatro metáforas
O Sutra Disposto como uma Árvore
ensina:
Ó Nobre, você deve pensar
de ti mesmo como alguém que está doente,
Do Dharma como o remédio,
Do amigo espiritual como um médico habilidoso
E da prática da diligência como o forma de recuperar-se.
Nós estamos doentes. Desde tempos sem
começo, neste imenso oceano de sofrimento que é o samsara, somos
constantemente atormentados pela doença dos três venenos e seus frutos, os
três tipos de sofrimento. Quando as pessoas ficam seriamente enfermas, elas vão
consultar um bom médico. Elas seguem a orientação médica, tomam quaisquer
remédios que ele prescreva, e fazem de tudo para superarem a doença e
sentirem-se bem. Da mesma forma, vocês precisam curarem-se das doenças do
carma, das emoções negativas e dos sofrimentos, seguindo as prescrições do
médico experiente, o autêntico professor, e tomando o remédio do Dharma.
Seguir um professor sem fazer o que ele ensina é como desobedecer seu médico,
o que tira dele qualquer chance de tratar sua doença. Não tomar o remédio
do Dharma — isto é, não pô-los em prática — é como ter diversos
medicamentos e orientações debaixo de sua cama sem nunca tocá-los. Isso fará
que sua doença nunca seja curada.
Nestes dias, as pessoas dizem cheias de
otimismo: "Lama, olhai-me com compaixão!" achando que mesmo que
elas façam coisas terríveis, elas nunca padecerão as conseqüências. Eles
crêem que o professor, e sua compaixão, os arremessará para os reinos
celestes como se ele estivesse lançando uma pedra. Contudo, quando falamos do
professor nos mantendo em sua compaixão, o que isso realmente significa é
que ele amorosamente nos aceita como seus discípulos, e que ele nos dá suas
instruções profundas, abre nossos olhos para o que fazer e o que não fazer,
mostra-nos o caminho para a liberação ensinado pelo Conquistador. Que maior
compaixão poderia haver? Depende de nós se aproveitamos ou não de tal
compaixão, e verdadeiramente buscamos o caminho da liberação.
Agora que nós temos este nascimento
humano livre e bem-dotado, agora que nós sabemos o que devemos e não devemos
fazer, nossa decisão neste momento crucial, quando temos a liberdade de
escolha, sinaliza aquele ponto de mudança que determinará nossa sorte, para
melhor ou para pior para o futuro. É crucial que nós escolhamos entre o
samsara e o nirvana de uma vez por todas, e que coloquemos as instruções de
nosso professor em prática.
Aqueles que celebram as cerimônias nos
vilarejos farão com que você acredite que no seu leito de morte, você ainda
pode subir ou descer, como se você estivesse conduzindo um cavalo pelas rédeas.
Contudo, naquele momento, a menos que você tenha dominado o caminho, os
ventos violentos de suas ações passadas te perseguirão, enquanto diante de
ti uma escuridão negra avança rapidamente em sua direção, a medida em que
você é levado impotentemente pelo caminho longo e perigoso do estado
intermediário. Os inumeráveis carrascos do Senhor da Morte te perseguirão
gritando: "Mata! Mata! Bate! Bate! Como poderia em tal momento — quando
não há lugar nenhum para se correr ou para se esconder, nenhum refúgio e
nenhuma esperança, quando você está desesperado e sem ter a menor idéia do
que fazer — como poderia em tal momento ser um ponto de mudança ao seu
controle? Como o Grande de Uddiyana diz:
Quando a iniciação está sendo dada
à carta onde lê-se o seu nome, é muito tarde! Sua consciência, já
vagueando no estado intermediário como um cachorro louco, vai achar muito difícil
pensar sobre reinos superiores.
De fato, o ponto de mudança, o único
momento que você pode realmente direcionar-se para cima ou para baixo como
estivesse conduzindo um cavalo pelas rédeas, é agora, enquanto você ainda
está vivo Como um ser humano, seus atos positivos são mais poderosos do que
aqueles dos outros tipos de seres. Isto dá a você, por outro lado, uma
oportunidade aqui e agora, nesta exata vida, de abandonar o ciclo de
renascimento de uma vez por todas. Mas seus atos negativos também são mais
poderosos também; assim também é muito provável, por outro lado, que você
nunca se liberte das profundezas dos reinos inferiores. Assim, agora que você
encontrou um professor, um médico habilidoso, e o Dharma, o elixir que
subjuga a morte, este é o momento de utilizarmos as quatro metáforas,
colocando o que você ouviu em prática, e trilhando o caminho da liberação.
O Tesouro de Preciosas Qualidades
descreve quatro noções erradas que devem ser evitadas, as quais são o
oposto das quatro metáforas que nós mencionamos:
Homens de língua curta com tendências
malignas Aproximam-se do professor como se ele fosse um almiscareiro. Após
terem extraído o almíscar, o perfeito Dharma, Cheios de alegria, desdenham o
samaya.
Tais pessoas comportam-se como se seu
professor espiritual fosse um almiscareiro, o Dharma o almíscar, e eles próprios
como os caçadores, e a prática intensa a forma de matar o almiscareiro com
um flecha ou armadilha. Eles praticam os ensinamentos que receberam e não
sentem qualquer gratidão para com o professor. Eles usam o Dharma para
acumularem atos malignos, amarrando ao redor de seus próprios pescoços a
pedra que vai arrastá-los para baixo, para as profundezas dos reinos
inferiores.
2.2.2. As
seis perfeições transcendentes
No Tantra da Completa Compreensão
das Instruções sobre Todas as Práticas Dhármicas, é dito:
Faça ofertas excelentes,
tais como flores e almofadas,
Coloque o lugar em ordem e controle seu comportamento,
Não cause mal nem mesmo a um inseto,
Tenha fé genuína em seu professor,
Ouça às suas instruções sem distração
E faça perguntas a ele para dissipar suas dúvidas;
Estas são as seis perfeições transcendentes.
Um pessoa ouvindo aos ensinamentos deve
praticar as seis perfeições transcendentes, como se segue:
Prepare o assento do
professor, disponha almofadas sobre o assento, ofereça uma mandala, flores
e outras ofertas. Isto é a prática da generosidade.
Varra o local ou cômodo, depois assente a poeira com água, e refreie-se
contra quaisquer atitudes desrespeitosas . Isto é a prática da disciplina.
Evite causar mal até mesmo ao menor dos insetos, e suporte calor, frio e
quaisquer outras dificuldades. Isto é a prática da paciência.
Coloque de lado quaisquer visões errôneas concernentes ao professor e ao
ensinamento, e ouça alegremente com fé genuína. Isto é a prática da
diligência.
Ouça às instruções do Lama sem distrair-se. Isto é a prática da
concentração.
Faça perguntas para dissolver
quaisquer faltas de convencimento e dúvidas. Isto é a prática da sabedoria.
2.2.3.
Outros modos de conduta
Todas as formas de comportamento
desrespeitoso deve ser evitado. O Vinaya diz:
Não ensine àqueles que não
têm respeito,
Àqueles que cobrem suas cabeças mesmo estando em bom estado de saúde,
Àqueles que carregam porretes, armas e sombrinhas
Ou àqueles cuja cabeças estão embrulhadas em turbantes.
E os Jatakas:
Tome o assento mais baixo.
Cultive o comportamento digno da disciplina completa.
Com seus olhos transbordando de felicidade,
Sorva as palavras como um néctar
E esteja completamente concentrado.
Esta é a forma de ouvir-se aos ensinamentos.
II.
Os ensinamentos em si: uma explicação de
como é difícil obter as liberdades e vantagens
O assunto principal do capítulo é
explicado em quatro seções: refletindo na natureza da liberdade, refletindo
nas vantagens particulares relacionadas ao Dharma, refletindo em imagens que
mostram o quanto é difícil se obter as liberdades e vantagens, e refletindo
em comparações numéricas.
1. Refletindo sobre
a natureza da liberdade
Em geral, aqui, "liberdade"
significa ter a oportunidade de praticar o Dharma, e não ter nascido em um
dos oito estados sem tal oportunidade. "Falta de liberdade"
refere-se àqueles oito estados onde não há tal oportunidade:
Nascer nos infernos, no
reino dos pretas,
Como um animal, um deus de vida longa ou um bárbaro,
Tendo visões errôneas, nascer quando não há um Buddha
Ou nascer surdo e mudo; estes são os oito estados sem liberdade.
Os seres nascidos nos infernos não têm
oportunidade de praticar o Dharma por eles estarem constantemente atormentados
pelo calor e frio intensos.
Os pretas não têm a oportunidade de
praticar o Dharma por sofrerem a experiência da fome e da sede.
Os animais não têm oportunidade de
praticar o Dharma por estarem sujeitos a escravidão e sofrerem ataques de
outros animais.
Os deuses de longa vida não têm oportunidade de praticar o Dharma por
passarem seu tempo em um estado de vazio mental.
Aqueles nascidos nos países fronteiriços
não têm a oportunidade de praticarem o Dharma devido a doutrina do Buddha
ser desconhecida em tais locais.
Aqueles que nascem como tirthikas ou
com visões errôneas similares, não têm a oportunidade de praticar o Dharma
por suas mentes estarem tão influenciadas por tais crenças equivocadas.
Aqueles nascidos durante um kalpa
escuro não têm oportunidade de praticarem o Dharma por nunca terem ouvido
sobre as Três Jóias, e por não poderem distinguir o bom do mau.
Aqueles nascidos mudos ou mentalmente
deficientes não têm a oportunidade de praticar o Dharma por suas faculdades
serem incompletas.
Os habitantes dos três reinos
inferiores de existência sofrem com o calor, o frio, a fome, a sede e outros
tormentos, os quais são o resultado de seus atos negativos do passado; eles não
têm a oportunidade de praticar o Dharma.
"Bárbaros" significa aqueles
que vivem nos trinta e dois países fronteiriços, tais como o Lokatra, e
todos aqueles que consideram causar o malefício dos outros como um ato de fé,
ou aqueles selvagens que crêem que matar é bom. Estas pessoas os territórios
remotos, têm a forma humana, mas suas mentes carecem da orientação correta
e sintonizarem-se com o Dharma. Herdando, de seus ancestrais, tais costumes
perniciosos, tais como casamento com a própria mãe, eles vivem de uma forma
extremamente oposta à prática do Dharma. Tudo que eles fazem é maligno, e
é nas técnicas de tais atividades prejudiciais, como matar insetos e caçar
animais, que eles de fato se excedem. A maioria deles caem nos reinos
inferiores logo após morrerem. Para tais pessoas não há oportunidade de
praticar o Dharma.
Os deuses de longa vida são aqueles
deuses que estão absorvidos em um estado de vazio mental. Os seres nascem
neste reino como resultado de crerem que a liberação é um estado no qual
todas as atividades mentais, boas e ruins, estão ausentes, e de meditarem
neste estado. Eles permanecem em tais estados de concentração por vários
kalpas a fio. Mas uma vez que o efeito dos atos do passado que produziram a
condição divina tenha se exaurido, eles renascem nos reinos inferiores
devido às suas visões errôneas. Eles também carecem da oportunidade de
praticarem o Dharma.
O termo "visões errôneas"
inclui, de forma geral, as crenças eternalistas e niilistas, as quais são
visões contrárias e estranhas ao ensinamento do Buddha. Tais visões
estragam nossas mentes e nos impedem de aspirarmos pelo autêntico Dharma, na
medida em que não mais temos a oportunidade praticá-lo. Aqui no Tibet,
devido ao segundo Buddha, Padmasambhava de Uddiyana, confiou a proteção da
terra às doze Tenma, os tirthikas não puderam ainda se estabelecer. Contudo,
qualquer um, cujo entendimento seja como o dos tirthikas, e contrário ao do
Dharma e dos Lamas autêntios, serão, desse modo, privados da oportunidade de
praticarem de acordo com os ensinamentos verdadeiros do Buddha. O monge
Sunakshatra passou vinte e cinco anos como assistente pessoal do Buddha, e
mesmo assim, por ele não ter nem um pouco de fé e manter em si visões errôneas,
terminou renascendo como um preta em um jardim.
Nascimento em um kalpa escuro significa
renascer em um período durante o qual não haja um Buddha. Em um universo
onde nenhum Buddha tenha aparecido, onde ninguém nunca sequer ouviu sobre as
Três Jóias. Como não há Dharma, não há qualquer oportunidade de praticá-lo.
A mente de uma pessoa nascida surda e
muda não pode funcionar apropriadamente [isto é, infelizmente as suas
faculdades serão prejudicas] e o processo de audição, de ser exposto a
eles, de refletir neles e pô-los em prática está impedido. A descrição
surdo-mudo normalmente refere-se a uma disfunção da palavra. Isso torna-se
em uma condição sem a oportunidade do Dharma, quando a habilidade de uso ou
compreensão da linguagem está ausente. Esta categoria, por essa razão,
inclui aqueles cuja deficiência mental os fazem incapazes de compreender aos
ensinamentos, e dessa forma os impede da oportunidade de praticá-los.
2. Refletindo nas
vantagens particulares relacionadas ao Dharma
Sob esse título estão incluídos
cinco vantagens individuais e cinco vantagens circunstanciais.
2.1. As cinco
vantagens individuais
Nagarjuna as lista da seguinte forma:
Nascer humano, em um local
central, com todas as faculdades,
Sem um estilo de vida conflitante e com fé no Dharma.
Sem uma vida humana não seria possível
nem mesmo encontrarmos o Dharma. Assim, este corpo humano é a vantagem do
suporte.
Tivéssemos nascido em um local remoto,
onde o Dharma nunca tivesse sido ouvido, nós nunca o teríamos encontrado.
Mas a região onde você nasceu é central, no que diz respeito ao Dharma, e
você tem a vantagem do local.
Não ter todos os seus sentidos e
faculdades intactas seria um obstáculo para prática do Dharma. Se você está
livre de tais deficiências, você tem a vantagem de possuir os sentidos e
faculdades.
Se você tivesse um estilo de vida
conflitual, você estaria continuamente imerso em ações negativas e distante
do Dharma. Uma vez que você presentemente tem o desejo de ter atos positivos,
isto é a vantagem da intenção.
Se você não tivesse fé nos
ensinamentos do Buddha, você não teria qualquer inclinação pelo Dharma.
Ter a habilidade de voltar sua mente para o Dharma, da forma com você está
fazendo agora, constitui a vantagem da fé.
Devido a estas cinco vantagens
necessitarem estar completas com relação a índole do indivíduo, elas são
chamadas de cinco vantagens individuais. Para realizarmos a verdadeira
natureza do Dharma autêntico, é absolutamente necessário ser um ser humano.
Agora, suponha que você não tenha o suporte de uma forma humana, mas tenha a
forma mais elevada de vida dos três reinos inferiores de existência, isso é,
a forma de um animal — digamos o mais belo e mais premiado animal conhecido
pelo homem. Se te dissessem: "diga Om Mani Padme Hum uma vez, e
você se tornará um Buddha", você seria totalmente incapaz de
compreender tais palavras ou perceber o seu significado, nem mesmo seria capaz
de pronunciar uma palavra. De fato, mesmo se você estivesse morrendo devido
ao frio, você não seria capaz de pensar em algo, a não ser deitar sobre um
monte de folhas — ao passo que um ser humano, não importa o quanto fraco
esteja, saberia como abrigar-se em uma caverna ou debaixo de uma árvore,
juntaria madeira e faria uma fogueira para aquecer seu rosto e mãos. Se os
animais são incapazes até mesmo de coisas tão simples, como poderiam eles
conceber a prática do Dharma?
Os deuses e outros seres do gênero,
embora superiores em sua forma física, não reúnem as exigências colocadas
para tomar-se os votos de pratimoksha, e por isso não conseguem
assimilar o Dharma em sua totalidade.
Quanto ao que se quer dizer por
"região central", devemos distinguir entre uma região geograficamente
central e um lugar que é central em termos do Dharma.
Geograficamente falando, a região
central é geralmente chamadas de o Assento Vajra em Bodh Gaya na Índia, ao
centro de Jambudvipa, o Continente do Sul. Os mil Buddhas do Bom Kalpa, todos
alcançarão a iluminação lá. Mesmo na destruição universal no final do
kalpa, os quatro elementos não poderão causar danos ao local, e permanecerá
lá como se suspenso no espaço. No seu centro ergue-se a Árvore da Iluminação.
Este lugar, com todas as cidades da Índia ao redor, é por essa razão
considerada a região central em termos geográficos.
Em termos dhármicos, um local central
é onde quer que o Dharma — os ensinamentos do Senhor Buddha — existe.
Todas as outras regiões são chamadas periféricas.
Em um passado distante, no tempo em que
o Senhor Buddha veio a este mundo, e durante o tempo em que suas doutrinas
ainda existiam na Índia, aquela terra era central tanto em termos geográficos
como dhármicos. Contudo, agora que o local caiu nas mãos dos tirthikas e a
doutrina do Conquistador desapareceu daquela região, no que diz respeito ao
Dharma, até mesmo Bodh Gaya é um local periférico.
Nos dias do Buddha, o Tibet, o País
das Neves, era chamado de "o país fronteiriço do Tibet", pois era
uma terra pouco povoada, na qual a doutrina não tinha ainda se espalhado.
Mais tarde, a população aumentou pouco a pouco, e lá reinaram diversos reis
que eram manifestações dos Buddhas. O Dharma primeiro surgiu no Tibet
durante o reino de Lha-Thothori Nyentsen, quando o Sutra dos Ritos de Renúncia
e Realização e uma forma de tsa-tsa caíram sobre o telhado do palácio.
Cinco gerações mais tarde, de acordo
com profecias que ele entenderia o significado do sutra, surgiu o Rei do
Dharma Songtsen Gampo, uma emanação do Sublime Compassivo. Durante o reinado
de Songtsen Gampo, o tradutor Thönmi Sambhota foi enviado à Índia para
estudar suas línguas e escritas. Quando retornou, ele introduziu um alfabeto
ao Tibet pela primeira vez. Ele traduziu para o tibetano os vinte um sutras e
tantras de Avalokiteshvara, O Segredo Poderoso e vários outros textos. O próprio
rei se manifestava de múltiplas formas, e juntamente com seu ministro
Gartongtsen, ele usava meios milagrosos para defender o país. Ele tomou, como
rainhas, duas princesas, uma chinesa e uma do Nepal, as quais trouxeram
consigo numerosas representações do corpo, da palavra e mente do Buddha,
incluindo as estátuas chamadas de Jowo Mikyö Dorje e o Jowo Shakyamuni
representantes em si do Buddha. O rei construiu os grupos de tempos conhecidos
como Thadül e Yangdül, dos quais o central era o Rasa Trulnang. Desta forma
ele estabeleceu o Buddhismo no Tibet. A princesa Wen-Ch'eng Kung-Chu, Kongjo
para os tibetanos, era a filha do imperador T'ai-tsung. A estátua que ela
trouxe, chamada Jowo Mikyö Dorje, era de Shakyamuni Buddha quando tinha doze
anos, e tinha sido presenteada ao imperador chinês por um rei budista de
Bengala; o templo Ramoche foi construído em 641 para abrigar a estátua. A
rainha Tritsun era filha do rei nepalês Amsuvarman, e a estátua que ela
trouxe, chamada Jowo Shakyamuni, era do Buddha Shakyamuni quando tinha oito
anos, e é o famoso Jowo Rinpoche no Rasa Trulnang [Jokhang].
Seu quinto sucessor, Rei Trisong
Detsen, convidou cento e oito pânditas para o Tibet, incluindo Padmasambhava,
o Preceptor de Uddiyana, o maior dos detentores de mantra, inigualável por
todos os três mundos. Para representar a forma do Buddha, Trisong Detsen
mandou construir templos, incluindo o Samye "imutável, espontaneamente
surgido". Para representar a palavra do Buddha, o autêntico Dharma,
cento e oito tradutores, incluindo o grande Vairotsana, aprenderam a arte de
traduzir e traduziram todos os principais sutras, tantras e shastras, na ocasião
correntes na nobre terra da Índia. Os "Sete Homens para Testar" e
outros foram ordenados monges, formando a Sangha, para representar a mente do
Buddha.
Daquele época em diante, até o
presente momento, os ensinamentos do Buddha têm brilhado como o sol no Tibet,
e, apesar dos altos e baixos, a doutrina do Conquistador nunca se perdeu em
quaisquer dos seus aspectos, transmissão ou realização. Dessa forma, o
Tibet, no que diz respeito ao Dharma é um país central.
Uma pessoa, carecendo de quaisquer um
dos cinco sentidos ou de suas faculdade não satisfaz as exigências impostas
para tomar os votos monásticos. Além disso, alguém que não tenha a boa
sorte de ser capaz de as representações do Conquistador para inspirar sua
devoção, ou ler e ouvir os ensinamentos preciosos e excelentes como material
para estudo e reflexão, não será totalmente capaz de receber o Dharma.
"Estilo de vida conflitante"
refere-se , estritamente falando, aos estilos de vida ou à pessoas nascidas
em comunidades de caçadores, prostitutas e assim por diante, que estão
envolvidas nestas atividades negativas desde a mais tenra idade. Mas de fato,
inclui qualquer cujos pensamentos, palavras e atos são contrários ao Dharma
— pois mesmo aqueles que não nasceram em tais estilos de vida podem
facilmente cair neles mais tarde na vida. Por isso é fundamental que evitemos
fazer qualquer coisa que conflite com o Dharma autêntico.
Se sua fé não está nos ensinamentos
do Buddha, mas nos deuses poderosos, nos nagas e assim por diante, ou em
outras doutrinas como às dos tirthikas, então, não importa quanta fé você
possa colocar neles, nenhum deles pode te proteger contra os sofrimentos do
samsara ou do renascimento nos reinos inferiores. Mas se você tiver uma fé
apropriadamente estabelecida nas doutrinas do Conquistador, a qual une
transmissão e realização, você é, sem dúvidas, um vaso apropriado para o
Dharma verdadeiro. E esta é a maior das cinco vantagens individuais.
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