dzongsar jamyang khyentse, thubten chökyi gyamtso ·
céu: as férias definitivas?

Nirvana, iluminação, liberação, liberdade, céu ― essas são palavras que muitos gostam de dizer e poucos têm tempo para examinar. Como seria ingressar num desses estados? Embora se possa pensar que o nirvana seja muito diferente do céu, as nossas versões de céu e nirvana têm, grosso modo, as mesmas características.

O céu/nirvana é o lugar para onde vamos ao morrer, depois de muitos anos pagando contas, fazendo práticas espirituais e sendo bons cidadãos. Lá, encontramos muitos de nossos velhos camaradas, pois é o lugar onde todos os "bons" mortos se reúnem, enquanto os mortos que não são tão bons sofrem lá embaixo. Finalmente, temos a oportunidade de desvendar os mistérios da vida, acabar as coisas que deixamos por fazer, reparar faltas e, quem sabe, conhecer nossas vidas passadas.

Enquanto isso, criancinhas sem órgãos genitais voam de um lado para o outro, cuidando de passar a nossa roupa. As moradias atendem a todos as nossas necessidades e desejos, muito bem localizadas em uma comunidade de moradores do nirvana, todos cumpridores da lei. Nunca precisamos trancar portas nem janelas e é provável que a polícia seja uma coisa desnecessária. Se existirem políticos, serão todos confiáveis e honestos. Tudo será exatamente como quisermos, como numa casa de repouso muito agradável. Ou talvez alguns imaginem a mais pura e clara das luzes, espaços vastos, arco-íris e nuvens onde poderemos repousar em estado de beatitude, exercitando poderes de clarividência e onisciência. Não haverá medo da morte, pois já estaremos mortos e não teremos nada a perder. A única preocupação que poderíamos ter seria com alguns dos nossos amigos e parentes queridos deixados para trás.

Siddhartha considerava essas versões do pós-morte fantasiosas. Se examinada de perto, a visão típica do céu não é tão atraente assim, tampouco a iluminação. Aposentadorias, luas-de-mel e piqueniques são ótimos ― se não forem infinitos. Se as férias dos sonhos forem longas demais, começaremos a sentir saudades de casa. Se a vida perfeita não tiver nenhum traço de sofrimento ou de risco, poderá ser enfadonha. Ao tomar conhecimento dessas coisas, você tem uma escolha ― adotar uma postura de superioridade ou ser solidário com aqueles que sofrem. Isso não é celestial.

Aqui, neste plano mundano, podemos assistir a filmes de suspense, de detetive e eróticos. No céu, uma linguagem sugestiva e roupas provocantes não lhe proporcionariam nenhum prazer porque, se os seres são oniscientes, já sabem o que está por trás de tudo. Podemos comemorar a noite de sexta-feira, depois de uma semana de trabalho duro. Podemos apreciar a mudança das estações e instalar a última versão de um programa no computador. Podemos abrir o jornal de manhã, ler sobre todas as coisas ruins que estão acontecendo no mundo e imaginar o que faríamos se pudéssemos trocar de lugar com os líderes mundiais. Podemos fazer tudo isso, embora muitos de nossos "pequenos prazeres" sejam na verdade problemas, sequer disfarçados de outra coisa. Se você gosta de assistir futebol com uma cerveja na mão, tem de ficar preso por duas horas inteiras assistindo ao jogo, sem muita liberdade para fazer outras coisas; você fica sujeito a interrupções; precisa pagar a TV a cabo, a comida e a bebida; seu colesterol pode subir e ainda corre o risco de ter um ataque cardíaco se o time adversário abrir o placar.

Em contraste, imaginamos que a iluminação é uma zona permanentemente livre de problemas. Será que conseguiríamos lidar com um estado em que não existissem obstáculos? Teríamos de passar sem muitas das emoções, realizações e diversões que compõem a nossa idéia de felicidade. Com certeza os fãs do Eminem ficariam enjoados com toa aquela música de harpa no céu ― eles iam querer ouvir o último CD do seu ídolo, com todo o linguajar ofensivo. Se aceitássemos a iluminação tal como a imaginamos, não poderíamos apreciar um filme de suspense; nosso poder de onisciência estragaria a surpresa no final. Não haveria mais vibração no Jóquei Clube, porque já saberíamos qual cavalo ganharia a corrida.

A imortalidade é um outro atributo geralmente associado à iluminação ou ao céu. Depois de instalados em nossa morada celeste, nunca mais morreremos; não há outra escolha a não ser continuar a viver para sempre. Ficamos entalados naquela situação. Não há por onde escapar. Temos tudo o que sempre sonhamos, exceto uma rota de saída, surpresas, desafios, satisfações ― nem livre-arbítrio, já que não mais será necessário. Levando tudo isso em conta, do ponto de vista atual, a iluminação é um estado de tédio absoluto.

Contudo, quase ninguém examina com um olhar crítico a sua própria visão da vida após a morte, pois é preferível que seja imprecisa, uma vaga idéia de que será um bom lugar de descanso final. A iluminação à qual aspiramos é eterna, uma espécie de moradia permanente. Ou talvez, algumas pessoas pensem que poderia voltar para nos visitar, transformadas em uma espécie de divindade ou ser superior com poderes especiais de que nós mortais não dispomos. Elas teriam imunidade angelical, como os diplomatas que viajam com passaporte especial. E graças à sua imunidade e alto escalão, imaginam que conseguiriam vistos para levar consigo, na volta, os amigos e parentes. Mas aí surge uma questão: se alguns desses novos imigrantes tiverem seu próprio modo de pensar ― talvez gostem de usar meias vistosas que distrairiam a atenção dos outros seres celestiais ― não haveria um problema no céu? E, se todas as "pessoas boas" puderem entrar de sócias do céu ou do nirvana, a versão de felicidade de qual devas vai prevalecer?

 Seja qual for a definição de felicidade, ela é o objetivo final de todo ser humano. Não é de surpreender, portanto, que a felicidade seja um componente indispensável na definição do céu ou da iluminação. Uma boa vida após a morte deve incluir a obtenção ― por fim! ― de tudo o que sempre lutamos para conseguir. Em geral, em nossa versão pessoal de céu, vivemos em um sistema semelhante ao nosso atual, só que mais sofisticado e com tudo funcionando melhor.

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adaptado de Dzongsar Jamyang Khyentse,
O que faz você budista
, Pensamento, pág. 116-119