jamyang khyentse wangpo, pema ösel dongag lingpa ·
biografia

Nas profundezas desta era de corrupção,
Ele regenerou o ensinamento com a doutrina não-sectária,
Abrindo o tesouro secreto das sete injunções —
Homenagem a [Jamyang] Khyentse Wangpo!

De acordo com a tradição Nyingma, Jamyang Khyentse Wangpo (1820-1892) é a emanação do aspecto do corpo de Jigme Lingpa. Ele se tornou um maiores lamas que o buddhismo tibetano conheceu, e nele todas as suas linhagens tiveram um ponto de confluência. Ele foi um eminente propagador das linhagens Nyingma, Sakya e Kagyü, dentre outras. Jamyang Khyentse Wangpo foi reconhecido como uma emanação de Jigme Lingpa (1730-1798) pelos Nyingmapas, e de Nesar Khyentse (1524-?) e Thartse Champa Namkha Chime pelos Sakyapas. Como Jigme Lingpa, ele foi também uma manifestação do Rei Trisong Detsen, Vimalamitra e de muitos outros lamas. Jamyang Khyentse Wangpo foi detentor de treze linhagens e era considerado um dos cinco reis dentre os cem principais tertöns da tradição Nyingma. Ele nasceu próximo a Khyungchen Drag em uma família do clã Nyö da aldeia de Dilgo no Vale Terlung em Derge, em meio a sinais extraordinários no quinto dia do sexto mês do ano do Dragão de Ferro do décimo quarto Rabjung (1820). Seu pai era Rinchen Wangyal, um administrador do Palácio de Derge, e sua mãe era Sönamtso, de ascendência mongol.

Certa feita seu pai perguntou ao primeiro Dodrubchen se deveria se ordenar monge. Dodrubchen respondeu: "Não faça isso. Se você não se tornar monge e se casar, um grande tülku nascerá entre seus filhos. Ele se tornará uma grande fonte de benefícios para o Dharma e para todos os seres." Desde a infância Jamyang Khyentse Wangpo conseguia se lembrar de suas vidas passadas, e Ekajati e Mahakala eram visíveis como formas e energias em torno dele para oferecer sua proteção. Aos oito anos de idade iniciou seus estudos de tibetano, astrologia, medicina e outras disciplinas com seu pai e Lamen Chödrag Gyatso. Sua inteligência era viva, tendo aperfeiçoado recitação e caligrafia sem a menor dificuldade. Também era capaz de compreender o significado de textos profundos por meio de sua simples leitura.

Um dia Jamyang Khyentse Wangpo caiu gravemente enfermo. Em uma visão recebeu uma iniciação de Vajrakilaya de Guru Rinpoche e Yeshe Tsogyal, e os obstáculos à sua vida foram pacificados. Por volta dos onze anos foi para o Monastério de Kathok e seu tio Mogtön deu-lhe o nome de Jigme Khyentse Dökar, o que indicava ser ele o tülku de Jigme Lingpa.

Aos doze anos, Thartse Khenpo Künga Tenzin (1776-?) o reconheceu como o tülku de seu professor e tio, Ngor Thartse Khenchen Champa Namkha Chime, que havia sido um grande Khenpo do Monastério de Ngor no Tibet Central, tendo ensinado e falecido em Lhündrup Teng em Derge. Künga Tenzin deu-lhe o nome de Jamyang Khyentse Wangpo Künga Tenpe Gyaltsen. Aos quinze anos, em uma visão pura, foi transportado para Bodhgaya onde Manjushrimitra confiou-lhe os tesouros dos ensinamentos da Prajnaparamita e do Anuttaratantra. Diante do templo de Bodhgaya ele purificou os obscurecimentos de seu corpo grosseiro, queimando-o e transformando-o em um corpo puro igual ao de Vimalamitra.

Aos dezesseis anos, em uma visão pura, foi até Zangdog Palri, e de Guru Rinpoche, cercado de hostes de dakinis, ele recebeu a introdução dos três corpos búddhicos e a profecia de que se tornaria o "destinatário das sete transmissões". Então, Guru Rinpoche e as dakinis fundiram-se em Khyentse, dizendo:

Manter de forma nua a consciência intrínseca da vacuidade,
Não manchada pelos objetos apreendidos
Nem poluída pelos pensamentos que apreendem,
Eis aí a visão dos buddhas.

Aos dezoito anos ele foi para o eremitério do Monastério de Shechen, onde estudou sânscrito, poética e outras disciplinas com Gyurme Thutob de Shechen.

Aos dezenove anos, recebeu de Jigme Gyalwe Nyugu as transmissões do ciclo do Longchen Nyingthig em meio a sinais miraculosos. Então, Lama Norbu, um discípulo do primeiro Dodrubchen, deu-lhe a introdução da natureza de mente, enquanto lhe transmitia os ensinamentos de Amitabha descobertos por Dodrubchen. Até o final de seus dias Jamyang Khyentse Wangpo dizia: "Nada mais havia a avançar [em termos de realização da natureza da mente] em relação ao que compreendi então." Aos vinte anos, a pedido de Thartse Khenpo, ele foi para o Monastério de Ngor, no Tibet Central. Aí descobriu muitos ensinamentos e objetos como tesouros da terra. Dentre esses, o Thugje Chenpo Semnyi Ngalso, descoberto em Dragmar Drinzang; o Lama Kushi Drubthab em Damshö Nyingtrung; o Tsasum Gyutrül Drawa em Singu Yutso; e o Tsasum Chidü em Yarlung Sheldrag. Aos vinte e um anos, recebeu ordenação monástica plena de Khenpo Rigdzin Wangpo do Monastério de Mindröling no Tibet Central. Recebeu os votos do bodhisattva de Sangye Künga, o sétimo detentor do trono de Mindröling.

Diante da estátua Jowo no Templo Jokhang em Lhasa, o arroz que jogou como oferenda imediatamente se transformou em flores brancas e cem lamparinas arderam sem precisar ser acesas. Enquanto dizia preces em benefícios dos seres, alguém pediu-lhe que compusesse uma aspiração para si mesmo. Ele disse:

Sem ninguém para guiar aqui [dentro de mim] nem qualquer criado aí fora,
Sem inimigos para vencer nem amigos para proteger,
Em um local solitário, domando minha própria mente,
Possa eu consumar os feitos grandiosos dos bodhisattvas.

Aos vinte e quatro anos, em Oyug, sua lembrança de ter sido Chetsüng Senge Wangchug e de sua subseqüente consecução do corpo de luz da grande transformação foi despertada, ao que ele descobriu os profundos ensinamentos do Chetsün Nyingthig. Fez então uma longa peregrinação como asceta a Tsang, Ngari e ao Tibet Central. Em muitos lugares vislumbrou imagens dos próprios buddhas ou de lamas, e teve visões puras e realizações. Ao final de seu vigésimo quarto ano de vida, retornou para Kham onde dedicou-se aos estudos da tradição Ngor em Dzongsar Tashi Lhatse.

Aos vinte e nove anos de idade, visitou novamente o Tibet Central por três anos. Em Gegye, enquanto recebia bênçãos de Guru Rinpoche em uma visão pura, descobriu o Sangdrup Tsokye Nyingthig como um tesouro da mente. Em Samye viu a imagem de Tsokye Dorje se transformar no próprio Guru Rinpoche, que se fundiu com sua pessoa. Em conseqüência disso descobriu o Tsokye Nyingthig. Aos 35 anos, enquanto meditava sobre Tara Branca, ele teve uma visão de Tara. Isso o levou a descobrir o P'hagme Nyingthig.

Aos quarenta anos, em conseqüência de uma visão pura, recebeu bênçãos de Guru Rinpoche que lhe permitiram enxergar todos os tertöns e todos os ensinamentos descobertos sob a forma de tesouros (ter) que haviam aparecido no passado, estavam então aparecendo e que iriam aparecer no futuro no Tibet. Desde então tornou-se o senhor de todos os tesouros.
 
De Khenpo Pema Dorje ele recebeu muitas transmissões, inclusive o Longchen Nyingthig, o Gyutrül Shitro, o Düpa Do e os dezessete tantras. Também do quarto Dzogchen Rinpoche recebeu os ensinamentos das práticas preliminares comuns e especiais do Longchen Nyingthig. Também recebeu transmissões do Longchen Nyingthig de Jigme Gyalwe Nyugu e Jetsün Sönam Chokden.

Recebeu então ensinamentos de todas as linhagens existentes no Tibet de cerca de cento e cinqüenta lamas, ao longo de um período de aproximadamente treze anos. Estudou ou recebeu transmissões de mais de setecentos volumes. Aí incluídas encontram-se as tradições Nyingma, Kadam, Sakya, Drikung, Taglung, Kamtsang e Drugpa, dentre outras.

Seus principais professores foram Trinchen Tashi Rinchen de Sakya, Thartse Künga Tendzin (1776-?), Champa Naljor e Ngawang Legtrub de Ngor na Província de Tsang no oeste, Trichen Gyurme Sangye e Jetsün Thrinle Chödron de Mindroling, e Lhatsün Rinpoche do Monastério Drepung na Província de Ü, e Shechen Gyurme Thutog, Jigme Gyalwe Nyugu, Migyur Namkhe Dorje, Khenpo Pema Dorje e Kongtrül Lodrö Thaye da Província de Kham no leste.

Jamyang Khyentse Wangpo obteve êxito em tudo o que estudou. No entanto, segundo Kyabje Dilgo Khyentse, "a principal prática de Jamyang Khyentse Wangpo foi o Guru Yoga de Longchen Nyingthig". Jamyang Khyentse Wangpo fez do Monastério Dzongsar Tashi Lhatse da tradição Sakya em Derge sua principal residência, tendo-o reconstruído depois da destruição causada pelas forças de Nyagrong. Segundo a tradição Nyingma, ele recebeu as transmissões ou tornou-se o detentor das sete ordens dos ensinamentos:

 1. Recebeu as transmissões tanto do Velhos Tantras quanto dos Novos Tantras.
 2. Descobriu muitos tesouros da terra (sater/sa gter).
 3. Descobriu muitos tesouros da terra que haviam sido descobertos por tertöns anteriores.
 4. Descobriu muitos tesouros da mente (gongter/dgongs gter).
 5. Descobriu ou recordou muitos tesouros da mente que haviam sido descobertos por tertöns anteriores.
 6. Descobriu muitos ensinamentos por meio de visões puras (dagnang/dag snang).
 7. Recebeu ensinamentos de transmissão oral (nyengyü/snyan brgyud) em visões puras de muitas deidades.
 
O terceiro Dodrubchen, que estudou com Jamyang Khyentse Wangpo, descreve suas experiências pessoais deste lama com as seguintes palavras:

Em todos os lugares em que habitava uma fragrância doce e marcante sempre permeava o ambiente, o que era considerado um sinal de sua estrita disciplina monástica. Um mero movimento de seus dedos era inspirador e significativo, e as pessoas pessoas não podiam ter outra atitude senão apreciar cada gesto seu. Em todos os lugares em que habitava, sentia-se sempre uma agradável sensação de calor, como a propiciada por uma lareira no inverno. Inúmeras pessoas o viram sob a forma de diferentes buddhas ou lamas do passado. Seja qual fosse a estação do ano, as pessoas em sua presença sempre tinham a sensação de estarem experimentando a alegria e a prosperidade do verão.  Ele era excepcionalmente atencioso para com os pobres, de quem cuidava e com quem falava com ternura. Pessoas arrogantes e cruéis, conhecidas por sua valentia, fugiam dele sem olhar para trás, como fugitivos, ou curvavam-se como se suas cabeças estavam caindo. Diante dele os grandes lamas e os poderosos ficavam insignificantes e humildes. Ele era humilde, honesto e bondoso. Era versado em valores do Dharma e da ética laica. Em sua presença ninguém ousava proferir palavras lisonjeiras ou enganosas.

Ele dava ensinamentos a todos os tipos de platéias com enorme confiança, como um leão dentre os animais. Em meio a grupos de discípulos, ele era simples e harmonioso com todos, falando na hora certa, pelo tempo certo. Seu raciocínio era veloz como um rio que corre montanha abaixo. Sua voz preenchia a atmosfera como ondas vindas do oceano. Às vezes ensinava sem ligar para suas refeições. Por causa do grande afluxo de discípulos e da carga de ensinamentos, visitantes às vezes tinham que esperar semanas e até meses para estar com Jamyang Khyentse Wangpo, mas todos se alegravam ao esperar por ele. Jamyang Khyentse Wangpo construiu muitos tempos e bibliotecas, tendo inspirado milhares de pessoas a empreender atividades em prol do Dharma. Ele promoveu a feitura de cerca de duas mil estátuas, a transcrição de cerca de dois mil volumes de escrituras, a confecção de blocos de madeira para cerca de quarenta volumes, a criação de mais de duzentas estátuas de cobre folheadas a ouro, e a reparação de muitos templos e monastérios de valor histórico.

Por muitas décadas conferiu ensinamentos e transmissões a discípulos de diferentes tradições. Por exemplo, deu as iniciações de Vajrasattva descobertas por Mingling Terchen cerca de cinqüenta vezes, e a iniciação e instruções do Longchen Nyingthig cerca de vinte vezes.

Aos setenta e três anos, no início do primeiro mês do ano do Dragão de Água (1892), Jamyang Khyentse Wangpo disse que, vez após vez, enxergava o Buddha Amitabha em meio a um mar de discípulos. Após a conclusão de uma cerimônia elaborada no vigésimo primeiro dia do primeiro mês, disse ao encarregado das oferendas: "Daqui para frente você não precisa fazer mais nada". No dia seguinte começou a manifestar sintomas de má saúde. Seus discípulos perguntaram: "Que orações devemos fazer para a sua longa vida?" Ele respondeu: "Nenhuma. Lá pelo dia vinte do mês que vem terei me recuperado". Quando eles insistiram, ele disse: "Seria bom se recitassem o maior número de vezes possível o mantra de cem sílabas de Vajrasattva. "Então, na manhã do vigésimo primeiro dia do segundo mês ele lavou as mãos e disse: "Agora podem levar todas as coisas [da minha mesa]. O meu trabalho está terminado por inteiro". A seguir, dizendo muitas e muitas preces de aspiração, jogou flores de cereais, que são um símbolo de completude. Mais tarde nesse dia retirou-se para vastidão da mente iluminada de Vimalamitra. Na região vizinha ocorreram leves tremores de terra.

Mesmo após a morte, seu rosto apresentava uma aparência luminosa, como a face da Lua. Seu corpo ficou leve como se fosse feito de algodão. Jamyang Khyentse Wangpo teve inúmeros discípulos em todas as escolas do buddhismo tibetano. Ele manifestou diversas emanações simultaneamente. Elas incluem Chökyi Wangpo (1894-1909) de Dzongsar, Chökyi Lodrö (1893-1959) de Kathok, Karma Khyentse Özer (1896-1945) de Palpung (Beri), Guru Tsewang (1897-?) de Dzogchen, Künzang Drodül Dechen Dorje (1897-1946) de Dza Palme, e Dilgo Khyentse Tashi Paljor (1910-1991) de Shechen. Dentre eles Kathok Khyentse Chökyi Lodrö (Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö) foi o lama de maior destaque. Após a morte de Dzongsar Khyentse, Kathok Khyentse mudou-se para o Monastério de Dzongsar, a residência da emanação anterior de Jamyang Khyentse Wangpo, e a partir de então, Kathok Khyentse passou a ser conhecido como Dzongsar Khyentse. Desde o início da década de 60 até o início da década de 90, Dilgo Khyentse Rinpoche, sustentando sozinho a tradição única das emanações dos Khyentses, propagou o Dharma de forma incansável na Índia, Butão, Nepal, Tibet e no Ocidente.

Jamyang Khyentse Wangpo, mestre dos ensinamentos Rime do Tibet, que são como o oceano,
O Senhor que detém as maravilhosas Sete Bênçãos Diretas Especiais
O próprio Manjushri em pessoa — possam seus ensinamentos aumentar, prosperar e crescer!

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adaptado de www.chagdud.org